terça-feira, 2 de julho de 2013
Planeta sem rumo
Quem se deteve às minhas costas?
Alguém apagou a sombra,
uma voz me cerca, cerrando-me as portas, cruzando-me,
uma máscara de cera vem desde longe, desdobrando-se.
No horror de Deus, um pássaro perfila um grito.
A noite é branca e morta, a lua, é preciso dizer?
no entanto é negro o relógio e implacável.
Sentimentos projetados;
e onde está a cabeça do sonho, que não tem cabeça,
nem pés, nem olhos, nem mãos e existe?
Meu corpo estendido entre céu e mundo
se eleva, resiste, se retrata ao se destroçar, entre verdes peixes alados que já não
[tocarão a terra
Eu sou minha sombra.
Construo inumeráveis ilusões fosforescentes
com palavras que saíram destruídas das misturas,
(teria que contar uma história) mas, todas as histórias são histórias,
e, portanto, engano.
Rumo à distância,
quem se reconhece no passado?
Veemência, veemência, és o espelho do que JÁ NÃO É,
apago-te de mim mesma e te envolvo com fogo,
rechaçando-te, como menina de rosa em tempos dolorosos,
de contenda sangrenta.
Poema de Winétt de Rokha (1892-1951). Do livro Oniromancia (1943).
