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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

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O rio inverte o curso de sua corrente.
A água das cascatas sobe.
As pessoas passam a caminhar retrocedendo.
Os cavalos caminham para trás.
Os militares desfazem o desfile.
As balas saem das carnes.
As balas entram nos canhões.
Os oficiais guardam suas pistolas.
A corrente é devolvida aos cabos.
A corrente penetra pelas tomadas.
Os torturados deixam de se debater.
Os torturados fecham suas bocas.
Os campos de concentração se esvaziam.
Aparecem os desaparecidos.
Os mortos saem de suas tumbas.
Os aviões voam para trás.
Os "rockets" sobem de volta aos aviões.
Allende dispara.
As chamas se apagam.
Tira o capacete.
La Moneda se reconstitui íntegro.
Seu crânio se recompõe.
Vai a uma sacada.
Allende retrocede até Tomás Moro.
Os detidos saem de costas dos estádios.
11 de Setembro.
Regressam aviões com refugiados.
O Chile é um país democrático.
As forças armadas respeitam a constituição.
Os militares voltam aos seus quartéis.
Neruda renasce.
Volta de ambulância para Isla Negra.
Sente dor na próstata. Escreve.
Victor Jara toca o violão. Canta.
Os discursos entram nas bocas.
O tirano abraça Prat.
Desaparece. Prat revive.
Os afastados são recontratados.
Os trabalhadores desfilam cantando.
Venceremos!


Poema de Gonzalo Millán (1946-2006), do livro La ciudad (1979). Abaixo, vídeo com o poeta lendo seus versos.



quarta-feira, 31 de julho de 2013

O fantasma Pinochet (II)




Há países que têm consciência coletiva, uma espécie de identidade nacional histórica, uma psicologia comum. Isso se reconhece em países europeus desde há muitos séculos por uma quantidade de autores literários, e se atribui também a formações políticas da Antiguidade greco-romana e de impérios ancestrais como o chinês.

Ainda que historiadores e filósofos políticos, Montesquieu e Gibbon, por exemplo, já o tivessem apontado no século das Luzes, isto foi mais comum nos séculos XIX e XX. Para ilustrar essa banalidade, citarei Stendhal e Elias Canetti, e também Proust quando compara as reações de países na Grande Guerra às de um ser humano.

Se há uma consciência coletiva nacional, haverá também um inconsciente coletivo do mesmo grupo ou massa? O livro de Freud que em inglês se chama Group Psychology tem como título em alemão traduzido ao castelhano Psicología de las masas y análises del yo. Como é sabido, aí se estende ao coletivo a estrutura libidinal e outras formas da psique subjetiva. Os estudos de casos precisos se referem a "Dois grupos artificiais: a Igreja e o Exército" (capítulo V), e no capítulo VI considera-se as nações entre as "larger units" com psique coletiva. Do mesmo modo, fala-se, em outras obras de metapsicologia, das "wish-phantasies of whole nations"; para não falar, ainda, da aplicação do Inconsciente ao povo hebreu em Moisés y el Monoteísmo; nem de Totem y Tabú. Ao que se agrega em 1985 o texto inédito do Freud de 1915 Vue d'ensemble des neuroses de transfert, acerca da "psichologie des peuples". E em 1919, quando escreve em Un enfant est battu: "Ce qui forme le noyau de l'inconscient psychique es l'heritage archaïque de l'etre humain".

Entendo que Freud se refere às verdadeiras nações, ou seja, a algo mais do que conglomerados numerosos de pessoas que habitam um mesmo território e desfrutam ou sofrem (ou não) de um Estado reconhecido pela comunidade de nações.

Que outro signo supõe a existência real de uma nação?

Sem entrar neste problema que quebrou cabeças de intelectuais - desde historiadores até filósofos - durante os últimos séculos (e que quebrou os ossos de milhões de vítimas em guerras e perseguições), concentremo-nos agora no traço principal - a meu ver - que Renan assinala em Qu'est-ce qu'une nation? (1882): "L'essence d'une nation est que tous les individus aient beaucoup de choses en commun, et aussi que tous aient oublié bien des choses". Em nossas palavras: uma memória e consciência comum e - atenção! - esquecimentos igualmente coletivos.

Esquecimentos, "refoulement", um inconsciente coletivo.

Cremos que é este o caso do Chile.





"El fantasma Pinochet" foi, inicialmente, uma conferência lida por Armando Uribe na universidade de Sorbonne, em Paris, no ano 2000, num evento dedicado à psicanálise. No ano seguinte, a conferência foi editada no livro El fantasma de la sinrazón y el secreto de la poesía, que venceria o Prêmio Altazor de Ensaio em 2002. Trata-se de um ensaio longo e idiossincrático que, como diz o próprio autor, se baseia numa sociologia e numa psicologia "silvestres" para identificar e analisar o papel e a função da violência na constituição da sociedade e da literatura chilenas.

Esta é a segunda parte do ensaio. A primeira pode ser lida aqui.