Há países que têm
consciência coletiva, uma espécie de identidade nacional histórica, uma
psicologia comum. Isso se reconhece em países europeus desde há muitos séculos por uma quantidade de autores literários, e se atribui também a
formações políticas da Antiguidade greco-romana e de impérios ancestrais como o
chinês.
Ainda que historiadores e
filósofos políticos, Montesquieu e Gibbon, por exemplo, já o tivessem apontado
no século das Luzes, isto foi mais comum nos séculos XIX e XX. Para ilustrar
essa banalidade, citarei Stendhal e Elias Canetti, e também Proust quando
compara as reações de países na Grande Guerra às de um ser humano.
Se há uma consciência
coletiva nacional, haverá também um inconsciente coletivo do mesmo grupo ou
massa? O livro de Freud que em inglês se chama Group Psychology tem como título em alemão traduzido ao castelhano Psicología de las masas y análises del yo.
Como é sabido, aí se estende ao coletivo a estrutura libidinal e outras formas
da psique subjetiva. Os estudos de casos precisos se referem a "Dois
grupos artificiais: a Igreja e o Exército" (capítulo V), e no capítulo VI
considera-se as nações entre as "larger units" com psique coletiva.
Do mesmo modo, fala-se, em outras obras de metapsicologia, das
"wish-phantasies of whole nations"; para não falar, ainda, da aplicação
do Inconsciente ao povo hebreu em Moisés
y el Monoteísmo; nem de Totem y Tabú.
Ao que se agrega em 1985 o texto inédito do Freud de 1915 Vue d'ensemble des neuroses de transfert, acerca da
"psichologie des peuples". E em 1919, quando escreve em Un enfant est battu: "Ce qui forme
le noyau de l'inconscient psychique es l'heritage archaïque de l'etre
humain".
Entendo que Freud se
refere às verdadeiras nações, ou seja, a algo mais do que conglomerados
numerosos de pessoas que habitam um mesmo território e desfrutam ou sofrem (ou
não) de um Estado reconhecido pela comunidade de nações.
Que outro signo supõe a
existência real de uma nação?
Sem entrar neste problema
que quebrou cabeças de intelectuais - desde historiadores até filósofos -
durante os últimos séculos (e que quebrou os ossos de milhões de vítimas em
guerras e perseguições), concentremo-nos agora no traço principal - a meu ver -
que Renan assinala em Qu'est-ce qu'une
nation? (1882):
"L'essence d'une nation est que tous les individus aient beaucoup de
choses en commun, et aussi que tous aient oublié bien des choses". Em
nossas palavras: uma memória e consciência comum e - atenção! - esquecimentos
igualmente coletivos.
Esquecimentos,
"refoulement", um inconsciente coletivo.
Cremos que é este o caso
do Chile.
"El fantasma Pinochet" foi, inicialmente, uma conferência lida por Armando Uribe na universidade de Sorbonne, em Paris, no ano 2000, num evento dedicado à psicanálise. No ano seguinte, a conferência foi editada no livro El fantasma de la sinrazón y el secreto de la poesía, que venceria o Prêmio Altazor de Ensaio em 2002. Trata-se de um ensaio longo e idiossincrático que, como diz o próprio autor, se baseia numa sociologia e numa psicologia "silvestres" para identificar e analisar o papel e a função da violência na constituição da sociedade e da literatura chilenas.
Esta é a segunda parte do ensaio. A primeira pode ser lida aqui.