Apresento abaixo uma
entrevista feita por Andi Nachón, em 2003, com as poetas chilenas Elvira Hernández,
Isabel Larraín, Soledad Fariña e María Eugenia Brito – que falam sobretudo da posição
ocupada, no universo literário e social chileno, pela mulher que escreve
poesia, bem como da importância de Gabriela Mistral para a superação de um
incômodo estereótipo de poeta feminina.
*
A
década de 80 no Chile foi um momento riquíssimo para a poesia, em contraposição
a uma das instâncias mais difíceis de sua história, não?
Isabel
Larraín: O inimigo comum convocou muita gente, nos uniu contra
a ditadura. A partir dos anos 80 passam a acontecer muitas leituras públicas,
muitos atos. Essa luta serviu para nos mostrar como atuar a partir da
resistência. Sem ter necessariamente representado opções políticas, a escritura
e as leituras públicas eram uma forma de resistência, uma semente.
E
como veem a aparição das vozes de mulheres neste marco?
Elvira
Hernández: Sempre senti que havia um tecido bastante amplo de
mulheres escrevendo, mas que todo esse tecido era subterrâneo. Penso, por
exemplo, em Estela Díaz, em Cecília Vicuña ou mesmo em Paz Molina. Mulheres
que, tendo livros, ainda assim estavam inteiramente submersas. E creio que no
momento em que aqui se começam a reivindicar certas liberdades, as mulheres
sentem o direito de ter uma expressão escrita. E nessas dimensões históricas a
mulher começa a fazer sua aparição em conjunção com outros atores sociais que
também se encontravam ferozmente reprimidos.
IL:
Começamos a nos conhecer, e esse tecido subterrâneo começou rapidamente a se
levantar em certas linhas.
Neste
sentido, o Congresso Internacional de Escritoras de 87 deve ter sido
importante...
Eugenia
Brito: Depois do Congresso houve um fenômeno interessante no
Chile e as mulheres tomaram um espaço, conquistaram um lugar para sua
escritura. Por exemplo, antes era inconcebível que alguém fosse apresentada por
outra mulher. Creio que o Congresso abriu possibilidades. Começou-se a ouvir
mais as vozes de mulheres como críticas, teóricas e escritoras. Apareceu esta
noção de "mulheres pares", que estavam lendo e produzindo ao mesmo
tempo. Foi um fenômeno interessante porque o Chile tem uma tradição muito
patriarcal na qual era muito difícil se fazer ouvir.
IL: Nós já chegamos num
terreno mais plano. Na minha geração estava bem mais estabelecido o fato da
mulher como poeta. Eu me dou conta de que a geração anterior começou a publicar
muito mais tarde que nós, publicaram entre os trinta e cinco e os quarenta
anos. Nós, entre os vinte e os trinta já tínhamos pelo menos um livro editado.
Assim se percebe que o terreno estava mais aberto, e já estava mais
estabelecida a realidade da "mulher escritora". Contudo, nos momentos
de fazer crítica ou de participar em revistas, nota-se que isso não está tão
superado. Mas sem dúvidas houve um pequeno avanço.
EB:
É marcante ter sido jovem nos anos setenta. Foi um momento muito rico mas
também muito inibidor, muito difícil.
EH:
Sim, depois de 1973 a palavra estava censurada em todos os níveis. Então a
pergunta era: o que se pode fazer hoje com uma palavra neste estado? E creio
que essa pergunta corroía: o que se pode fazer com a palavra depois de todo seu
percurso estético, histórico, o que se pode balbuciar?
Neste
sentido as vozes das mulheres têm uma clara tendência a pôr em discussão o
público, e a problematizar sua presença no público.
Soledad
Fariña: Claro. Meu segundo livro é um livro de busca, diria
que de indagação. E dentro de suas perguntas se deu uma pergunta por nossa
identidade, de mulheres, na escritura. Em meu primeiro livro a busca mais
consciente era uma pergunta sobre a América Latina, sobre essa enteléquia em
relação à qual me situo. E Albricia
se centra mais na figura e na subjetividade das mulheres. Mas as duas buscas
são perguntas sobre a linguagem. Colocam em jogo uma identidade cultural, e
também um estar cultural.
EB:
É que houve uma tentativa de romper com uma voz intimista. Aqui havia a noção
da poetisa que declamava, e era uma dama, e falava da vida íntima.
EH:
E creio que com a postura de Gabriela Mistral, abordando não apenas o mundo
íntimo, mas também um mundo social, educacional e público, já acontece uma
forte mudança. A palavra "poeta" parecia privativa do sujeito
masculino e Mistral se apropria dela. E a partir dos anos setenta as mulheres
que escrevem sentem em sua escritura a possibilidade de reivindicar para si a palavra
poeta.
EB:
A mulher se distancia do estereótipo de uma figura de salão. Ou de uma
iluminada. Formas pensadas a partir de um modelo patriarcal, como
entretenimento ou, em seu máximo, a poetisa como criadora de uma "poesia
intuitiva".
EH:
Sim, passou-se dessa poesia decorativa para a ideia de que também se pode
alcançar uma palavra pública.
IL:
Acho que a instauração de uma voz de mulher dá conta de um espaço que reflete
um pouco mais como as coisas são agora, como queremos que seja.
EH:
Para mim, essa primeira pessoa é uma quantidade de vozes dissimiles, mas, no
fundo, há um substrato da mulher que subjaz e que surge de um si mesmo que vai
se construindo através dessa grande quantidade de vozes por onde avança. Eu
diria que são zonas dolorosas. Que nessa emergência da palavra, vai levando e
vai sendo levada por lugares não mencionados, mas que também são difíceis de
definir. E eu creio que esse aspecto, essa indefinição, é por conta do trânsito
que há em zonas por onde não se andou, que não são visíveis.
Sem
dúvidas a presença de Gabriela Mistral dentro da tradição literária deve ter
sido forte para vocês.
SF:
Saiba que, como esta mulher foi tão sacralizada, nos custou muito encontrá-la.
Faz pouco tempo que estamos nos aproximando dela de forma mais natural. Mistral
deixou coisas ocultas e coisas abertas. Bem, Elvira tem essa bonita reflexão,
sobre "as coisas que Mistral deixou fechadas". E muitos de nós
estamos buscando a chave para abrir essa riqueza que ela deixou.
EH:
Gabriela Mistral sempre me seduziu porque ela busca uma linguagem muito
arcaica. E eu sigo sustentando que talvez não fosse tão importante ser
absolutamente moderno, mas, eu diria, absolutamente arcaica. Mais uma busca em
direção ao passado do que em direção ao futuro.
Claro.
E, vistas a partir de fora, uma semelhança entre suas escrituras é a busca...
EH:
Sim. Ainda que eu acredite que escrevemos a partir desse silêncio que as
leituras deixam. Tratamos de recolher isso que está sendo apagado. Começamos a
escrever num momento em que a América Latina como tal é um conceito que começa
a desaparecer, o próprio país está tratando de ser apagado em muitos aspectos,
então se trata de recolher isso. Há algo de que não se quer deixar rastros e
então a escritura procura tornar isso patente, dar conta disso.
EB:
Há uma tentativa de manter uma linguagem viva. E de não desaparecer.
SF:
Sim, e para mim também uma inquietude, a poesia como forma de conhecimento.
Para mim, essa é realmente uma raiz. Às vezes muito aérea. E às vezes ligada à
terra.
IL:
E ao mesmo tempo o panorama agora é muito mais indefinível, mais rápido. A
possibilidade de referentes e de leituras é múltipla. Isso faz com que haja
maior liberdade para ter um pequeno projeto poético ou para escrever um par de
coisas sem necessidade do grande projeto. Finalmente, se se é coerente com o
que se acredita, a palavra é um veículo de liberdade.
