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terça-feira, 16 de julho de 2013

Entrevista




Apresento abaixo uma entrevista feita por Andi Nachón, em 2003, com as poetas chilenas Elvira Hernández, Isabel Larraín, Soledad Fariña e María Eugenia Brito – que falam sobretudo da posição ocupada, no universo literário e social chileno, pela mulher que escreve poesia, bem como da importância de Gabriela Mistral para a superação de um incômodo estereótipo de poeta feminina.


*


A década de 80 no Chile foi um momento riquíssimo para a poesia, em contraposição a uma das instâncias mais difíceis de sua história, não?

Isabel Larraín: O inimigo comum convocou muita gente, nos uniu contra a ditadura. A partir dos anos 80 passam a acontecer muitas leituras públicas, muitos atos. Essa luta serviu para nos mostrar como atuar a partir da resistência. Sem ter necessariamente representado opções políticas, a escritura e as leituras públicas eram uma forma de resistência, uma semente.

E como veem a aparição das vozes de mulheres neste marco?

Elvira Hernández: Sempre senti que havia um tecido bastante amplo de mulheres escrevendo, mas que todo esse tecido era subterrâneo. Penso, por exemplo, em Estela Díaz, em Cecília Vicuña ou mesmo em Paz Molina. Mulheres que, tendo livros, ainda assim estavam inteiramente submersas. E creio que no momento em que aqui se começam a reivindicar certas liberdades, as mulheres sentem o direito de ter uma expressão escrita. E nessas dimensões históricas a mulher começa a fazer sua aparição em conjunção com outros atores sociais que também se encontravam ferozmente reprimidos.
IL: Começamos a nos conhecer, e esse tecido subterrâneo começou rapidamente a se levantar em certas linhas.

Neste sentido, o Congresso Internacional de Escritoras de 87 deve ter sido importante...

Eugenia Brito: Depois do Congresso houve um fenômeno interessante no Chile e as mulheres tomaram um espaço, conquistaram um lugar para sua escritura. Por exemplo, antes era inconcebível que alguém fosse apresentada por outra mulher. Creio que o Congresso abriu possibilidades. Começou-se a ouvir mais as vozes de mulheres como críticas, teóricas e escritoras. Apareceu esta noção de "mulheres pares", que estavam lendo e produzindo ao mesmo tempo. Foi um fenômeno interessante porque o Chile tem uma tradição muito patriarcal na qual era muito difícil se fazer ouvir.
IL: Nós já chegamos num terreno mais plano. Na minha geração estava bem mais estabelecido o fato da mulher como poeta. Eu me dou conta de que a geração anterior começou a publicar muito mais tarde que nós, publicaram entre os trinta e cinco e os quarenta anos. Nós, entre os vinte e os trinta já tínhamos pelo menos um livro editado. Assim se percebe que o terreno estava mais aberto, e já estava mais estabelecida a realidade da "mulher escritora". Contudo, nos momentos de fazer crítica ou de participar em revistas, nota-se que isso não está tão superado. Mas sem dúvidas houve um pequeno avanço.
EB: É marcante ter sido jovem nos anos setenta. Foi um momento muito rico mas também muito inibidor, muito difícil.
EH: Sim, depois de 1973 a palavra estava censurada em todos os níveis. Então a pergunta era: o que se pode fazer hoje com uma palavra neste estado? E creio que essa pergunta corroía: o que se pode fazer com a palavra depois de todo seu percurso estético, histórico, o que se pode balbuciar?

Neste sentido as vozes das mulheres têm uma clara tendência a pôr em discussão o público, e a problematizar sua presença no público.

Soledad Fariña: Claro. Meu segundo livro é um livro de busca, diria que de indagação. E dentro de suas perguntas se deu uma pergunta por nossa identidade, de mulheres, na escritura. Em meu primeiro livro a busca mais consciente era uma pergunta sobre a América Latina, sobre essa enteléquia em relação à qual me situo. E Albricia se centra mais na figura e na subjetividade das mulheres. Mas as duas buscas são perguntas sobre a linguagem. Colocam em jogo uma identidade cultural, e também um estar cultural.
EB: É que houve uma tentativa de romper com uma voz intimista. Aqui havia a noção da poetisa que declamava, e era uma dama, e falava da vida íntima.
EH: E creio que com a postura de Gabriela Mistral, abordando não apenas o mundo íntimo, mas também um mundo social, educacional e público, já acontece uma forte mudança. A palavra "poeta" parecia privativa do sujeito masculino e Mistral se apropria dela. E a partir dos anos setenta as mulheres que escrevem sentem em sua escritura a possibilidade de reivindicar para si a palavra poeta.
EB: A mulher se distancia do estereótipo de uma figura de salão. Ou de uma iluminada. Formas pensadas a partir de um modelo patriarcal, como entretenimento ou, em seu máximo, a poetisa como criadora de uma "poesia intuitiva".
EH: Sim, passou-se dessa poesia decorativa para a ideia de que também se pode alcançar uma palavra pública.
IL: Acho que a instauração de uma voz de mulher dá conta de um espaço que reflete um pouco mais como as coisas são agora, como queremos que seja.
EH: Para mim, essa primeira pessoa é uma quantidade de vozes dissimiles, mas, no fundo, há um substrato da mulher que subjaz e que surge de um si mesmo que vai se construindo através dessa grande quantidade de vozes por onde avança. Eu diria que são zonas dolorosas. Que nessa emergência da palavra, vai levando e vai sendo levada por lugares não mencionados, mas que também são difíceis de definir. E eu creio que esse aspecto, essa indefinição, é por conta do trânsito que há em zonas por onde não se andou, que não são visíveis.

Sem dúvidas a presença de Gabriela Mistral dentro da tradição literária deve ter sido forte para vocês.

SF: Saiba que, como esta mulher foi tão sacralizada, nos custou muito encontrá-la. Faz pouco tempo que estamos nos aproximando dela de forma mais natural. Mistral deixou coisas ocultas e coisas abertas. Bem, Elvira tem essa bonita reflexão, sobre "as coisas que Mistral deixou fechadas". E muitos de nós estamos buscando a chave para abrir essa riqueza que ela deixou.
EH: Gabriela Mistral sempre me seduziu porque ela busca uma linguagem muito arcaica. E eu sigo sustentando que talvez não fosse tão importante ser absolutamente moderno, mas, eu diria, absolutamente arcaica. Mais uma busca em direção ao passado do que em direção ao futuro.

Claro. E, vistas a partir de fora, uma semelhança entre suas escrituras é a busca...

EH: Sim. Ainda que eu acredite que escrevemos a partir desse silêncio que as leituras deixam. Tratamos de recolher isso que está sendo apagado. Começamos a escrever num momento em que a América Latina como tal é um conceito que começa a desaparecer, o próprio país está tratando de ser apagado em muitos aspectos, então se trata de recolher isso. Há algo de que não se quer deixar rastros e então a escritura procura tornar isso patente, dar conta disso.
EB: Há uma tentativa de manter uma linguagem viva. E de não desaparecer.
SF: Sim, e para mim também uma inquietude, a poesia como forma de conhecimento. Para mim, essa é realmente uma raiz. Às vezes muito aérea. E às vezes ligada à terra.
IL: E ao mesmo tempo o panorama agora é muito mais indefinível, mais rápido. A possibilidade de referentes e de leituras é múltipla. Isso faz com que haja maior liberdade para ter um pequeno projeto poético ou para escrever um par de coisas sem necessidade do grande projeto. Finalmente, se se é coerente com o que se acredita, a palavra é um veículo de liberdade.