sábado, 28 de dezembro de 2013

Eu não sou...





        Eu não sou o vento nem a praia
nem a onda que berra
nem a mão que implora.

         Eu não sou nada:
nada além desta carteira de identidade
que até o mais ingênuo policial põe sob suspeita.

         Não o digo por mim,
mas pelo retrato que de mim fizeram.


Poema de Armando Rubio Huidobro (1955-1980). Do livro póstumo Ciudadano (1983).



Com esse post, o Otraversão encerra suas atividades neste 2013 e, para 2014, a promessa é partir pra página impressa (seja livro, seja plaquete, seja revista) e circular livremente por vossas mãos, olhos e peitos.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Unamo-nos




Unamo-nos pelos que ficaram para trás, pelos que não tiveram
pernas para correr, pelos que morreram cantando pela vida,
unamo-nos pela mãe que perdeu todos os filhos
e pelo pai que só teve tempo de recostar e morrer,
unamo-nos pelo amigo que não nos pôde abrir a porta porque
       estava acorrentado,
unamo-nos pela infância que não tivemos porque fomos jogados na
       rua,
unamo-nos pelo amor que nunca sorriu,
unamo-nos pelo sol que nunca esquentou,
unamo-nos pela casa que foi sempre tão fria,
unamo-nos pelo pão que foi sempre tão duro, unamo-nos
pela sucessão indestrutível dos anos,
pela exatidão de primaveras e trigos, unamo-nos
pelo encadeamento de águas e terras!


Poema de Efraín Barquero (1931). Do livro La piedra del pueblo (1954).