Otraversão
tradução crítica, poética, política, etc/ antojolía de letras chilenas.
terça-feira, 1 de abril de 2014
sábado, 28 de dezembro de 2013
Eu não sou...
Eu não
sou o vento nem a praia
nem a onda que berra
nem a mão que implora.
Eu
não sou nada:
nada além desta carteira de identidade
que até o mais ingênuo policial põe sob
suspeita.
Não o
digo por mim,
mas pelo retrato que de mim fizeram.
Poema de Armando Rubio Huidobro (1955-1980). Do livro póstumo Ciudadano (1983).
Com
esse post, o Otraversão encerra suas atividades neste 2013 e, para 2014, a
promessa é partir pra página impressa (seja livro, seja plaquete, seja revista)
e circular livremente por vossas mãos, olhos e peitos.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Unamo-nos
Unamo-nos pelos que ficaram para trás, pelos que não tiveram
pernas para correr, pelos que morreram cantando pela vida,
unamo-nos pela mãe que perdeu todos os filhos
e pelo pai que só teve tempo de recostar e morrer,
unamo-nos pelo amigo que não nos pôde abrir a porta porque
estava acorrentado,
unamo-nos pela infância que não tivemos porque fomos jogados na
rua,
unamo-nos pelo amor que nunca sorriu,
unamo-nos pelo sol que nunca esquentou,
unamo-nos pela casa que foi sempre tão fria,
unamo-nos pelo pão que foi sempre tão duro, unamo-nos
pela sucessão indestrutível dos anos,
pela exatidão de primaveras e trigos, unamo-nos
pelo encadeamento de águas e terras!
Poema de Efraín Barquero (1931). Do livro La piedra del pueblo (1954).
domingo, 22 de dezembro de 2013
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
A psicologia
Como você
representa a falta de peixe?
Como você faz para
surpreender os personagens indesejáveis que deslizam entre seus pensamentos?
Enumere diversos procedimentos.
Ao fim do retorno
às suas recordações, coloque uma escada contra a parede, mas não comece a subir
sem ter se provido de uma corda, da qual um dos extremos será solidamente
fixado ao chão e o outro enrolado ao redor do seu punho esquerdo. Por não terem
tomado esta precaução, muitas pessoas jamais retornaram.
Poema de Juan Luis Martínez (1942-1993). Do livro La nueva novela (1977)
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Autocríticas, um
Está mal feita
Esta Mulher está mal feita
diz a letra
de uma cumbia
colombiana.
ESPANTOSA SENSAÇÃO
quando notas e é evidente
que a poesia que há pouco escreveste
também está mal feita
a Poesia está
mal
feita.
*
Está mal feita
Esta Mulher está mal feita
diz a letra
de um pagodão
baiano.
ESPANTOSA SENSAÇÃO
quando notas e é evidente
que a poesia que há pouco escreveste
também está mal feita
a Poesia está
mal
feita.
Poema de Rodrigo Lira (1949-1981) em duas versões.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Espejismos y realidades de la poesía chilena actual (excerto)
(...)
Toda poesia é uma forma de
comunicação, de fraternidade, um ato de amor. Apenas os obcecados pela
incomunicabilidade e pela obscuridade podem pensar o contrário. Com razão
Gonzalo Rojas disse: "... se minha palavra não tivesse sido escutada: ah,
então não teria sido igual! Assim vou. Abrindo o mundo, como posso, com minha
palavra, que é apenas parte da palavra dos poetas". É claro que existe uma
poesia hermética, por necessidade profunda (por ora acessível apenas a uma
minoria), como a de Humberto Díaz Casanueva, por exemplo. Mas junto a estes
qualificados e necessários poetas existem os pseudopoetas que se amparam na
facilidade de expressar em linhas mal cortadas a dispersão mental, a a-lógica,
ou que despejam suas deliquescências adolescentes, seu vanguardismo anacrônico,
os que elevam o lugar comum e o discurso de jornal à categoria do espírito, ou
os que querendo ser mais Parra do que Parra incorrem em uma antipoesia que
costuma não provocar riso, mas lástima. Todos eles, e não são poucos, criam uma
confusão que prejudica notoriamente a difusão e o conhecimento da poesia como
ela é.
Em que pese toda a grande
fama da poesia chilena, e o lugar egrégio que ela ocupa segundo todos dizem
reconhecer, a grande maioria dos poetas se bate com o problema de não ter
editor, não poder dar a conhecer sua mensagem. Os editores não são filantropos,
é claro, e afirmam que poesia não vende, ainda que façam muito pouco para
difundi-la. De vez em quando se interessam pelas antologias, pois estas vendem,
mas, para a desgraça dos poetas, na maior parte das vezes não são senão
"Antojolías"[1]
ou improvisações feitas por poetas ou críticos de boa ou má vontade (fora as
antologias de Molina e Araya, Selva Lírica, a de Anguita e Teitelboim e, com
todas as suas distorções, a de Jorge Elliott, seria difícil encontrar outras
criteriosas). No ano passado apenas um livro de um poeta das últimas gerações
foi publicado por uma editora comercial: El Viento de los Reinos, de Efraín
Barquero. La fuga de Sebasatián, de Jaime Gómez Rogers, apareceu graças a ter
vencido o Premio Alerce de la Sociedade de Escritores, que está sob ameaça de
ser extinto. Mesmo Gonzalo Rojas teve de financiar grande parte do seu Contra
la muerte, que no entanto apareceu em Cuba, e a viúva de Rosamel del Valle,
Therése Dulac, financiou a edição póstuma de Adiós enigma tomasol. Assim o
poeta, sobretudo o poeta jovem, deve publicar-se arriscadamente, por conta
própria, e ao fim, seu livro, sem contar com distribuição, está condenado a ser
enviado aos amigos, a não ser que o deixe dormindo num sótão. Situações todas
elas deprimentes que contribuem para a separação entre poeta e público. E
apenas um tolo pedante ou um pedante tolo pode consolar-se atualmente da pouca
difusão dos seus livros dizendo que acontecia o mesmo com Baudelaire. Já não é
possível se conformar com a ideia da poesia como um patrimônio de uns poucos e
sábios iniciados. Se fosse assim, ela seria um luxo, e não uma necessidade, e o
poeta, um ser antediluviano a ponto de extinguir-se, duas coisas fora de toda
realidade. Todo criador verdadeiro sabe - e o experimentou - que a poesia é uma
linguagem de fraternidade, um meio de alterar a vida individual e coletiva, um
sistema de correlação e conhecimento entre homem e natureza.
[1] Trocadilho com as palavras
antología e antojo – que significa qualquer coisa como um julgamento apressado,
feito sem uma verdadeira análise.
Excerto de um texto de Jorge Teillier (1935-1996).
domingo, 13 de outubro de 2013
Cartas do poeta que dorme numa cadeira (excerto)
XV
Esta é a última vez que repito:
Os vermes são deuses
As borboletas são flores em movimento perpétuo
Dentes cariados
dentes quebradiços
Eu sou do tempo do cinema mudo.
Fornicar é um ato literário.
XV das Cartas del poeta que duerme en una silla, de Nicanor Parra (1914). De Obra Gruesa (1969).
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Distância
Indiferença do mundo
e das coisas
diante de mim;
indiferença minha
diante do mundo e das coisas:
mútua correspondência.
Transito
e caio
de pé.
A mesma porta
entreaberta
num deserto
murcho sob o sol.
A gaivota extraviada
numa miragem marinha,
abre as asas,
hirta,
sobre o vazio das coisas.
Poema de Armando Rubio Huidobro (1955-1980). Do livro póstumo Ciudadano (1983).
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
El hueso de la memoria (excertos)
Eu
COM FORÇA ME CRAVO
e na terra
não
me
moves.
NÃO
ME
MOVES.
*
Cobertos de noite
caminhamos.
*
Impávida
BRILHA A MÁSCARA.
*
FERIDAS, NÃO HÁ.
*
Sofro a geada.
Devoro tua sombra
espanto tua sombra
teu corpo
teu membro de ferro.
Excertos da primeira parte do livro El hueso de la memoria (1985), intitulada "La miseria del ojo", de Veronica Zondek (1953).
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
48
O rio inverte o curso de sua corrente.
A água das cascatas sobe.
As pessoas passam a caminhar retrocedendo.
Os cavalos caminham para trás.
Os militares desfazem o desfile.
As balas saem das carnes.
As balas entram nos canhões.
Os oficiais guardam suas pistolas.
A corrente é devolvida aos cabos.
A corrente penetra pelas tomadas.
Os torturados deixam de se debater.
Os torturados fecham suas bocas.
Os campos de concentração se esvaziam.
Aparecem os desaparecidos.
Os mortos saem de suas tumbas.
Os aviões voam para trás.
Os "rockets" sobem de volta aos aviões.
Allende dispara.
As chamas se apagam.
Tira o capacete.
La Moneda se reconstitui íntegro.
Seu crânio se recompõe.
Vai a uma sacada.
Allende retrocede até Tomás Moro.
Os detidos saem de costas dos estádios.
11 de Setembro.
Regressam aviões com refugiados.
O Chile é um país democrático.
As forças armadas respeitam a constituição.
Os militares voltam aos seus quartéis.
Neruda renasce.
Volta de ambulância para Isla Negra.
Sente dor na próstata. Escreve.
Victor Jara toca o violão. Canta.
Os discursos entram nas bocas.
O tirano abraça Prat.
Desaparece. Prat revive.
Os afastados são recontratados.
Os trabalhadores desfilam cantando.
Venceremos!
Poema de Gonzalo Millán (1946-2006), do livro La ciudad (1979). Abaixo, vídeo com o poeta lendo seus versos.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Os perdidos
É difícil falar de
uma figura emblemática, uma figura que nos sirva de símbolo ou de ponte entre o
século XX e o século XXI. Sobretudo na América Latina, onde, por um lado, foram
abundantes as figuras emblemáticas trágicas e as figuras emblemáticas caricaturais,
os pais da pátria tanto de direita como de esquerda que afundaram o continente
em algo que poderia ser uma mescla de pântano de areias movediças e de Las
Vegas. Mas me ocorre agora que essa figura poderia ser Rodrigo Lira e que se
Rodrigo Lira lesse isso ele começaria a rir. Sua vida foi, sem dúvidas, um
alarde de discrição, só que a discrição, em Rodrigo, não possuía as conotações
que costuma ter no resto do planeta ou ao menos na América Latina, onde é
sinônimo de silêncio e também de castração. A discrição, para Rodrigo Lira, era
uma mescla perigosa de elegância e tristeza. Uma elegância e uma tristeza que
podiam ser extremas, que costumavam ser extremas, e que em público (e suponho
que também na privacidade, o que neste caso quer dizer: na solidão irrestrita) aparecia
armada dos pés à cabeça com o humor mais cáustico, como se Rodrigo fosse um
cavaleiro medieval perdido num sonho que logo se transformou em pesadelo. Era
poeta, claro. Às vezes é tentador crer que foi o último poeta do Chile, um dos
últimos poetas da América Latina. Nasceu em 1949, o que significa que tinha
vinte e quatro anos quando ocorreu o golpe militar. Pelos seus textos, o leitor
tem às vezes a impressão de que seu mundo, a geografia pela qual se movia,
estava circunscrito a algumas faculdades universitárias e a umas poucas
bibliotecas santiaguinas, cidade da qual era originário. Muitos de seus poemas
são comentários marginais à obra de alguns grandes poetas chilenos, os quais
ele frequentou e dos quais ele esgotou a paciência: à primeira vista parecem
brincadeiras, leituras frívolas, insultos proferidos por um tipo relativamente
jovem, que não quer crescer, que não quer entrar no mundo adulto. Por trás das
invectivas, por trás do riso que provoca no poema o carnaval imóvel da literatura,
é possível encontrar outras coisas, entre elas o horror e um olhar profético
que anuncia o fim da ditadura mas não o fim da estupidez, o fim da presença
militar mas não o fim das areias movediças e do silêncio que a presença militar
instalou, tudo faz pensar que para sempre ou que por um tempo tão prolongado
que é, para efeitos de vida humana, semelhante à eternidade, na vida civil
chilena. Profético, visionário, são outras as coisas, no entanto, que
interessam de verdade a Rodrigo Lira. Interessam-lhe algumas mulheres que
indefectivelmente o abandonam ou nem sequer falam com ele. Interessa-lhe seu
cabelo, que vai perdendo, e à medida que a calvície cresce suas costeletas,
antes diminutas, vão crescendo também, até formarem costeletas volumosas, costeletas
de prócer da Independência. Interessam-lhe as camisas floridas. Interessam-lhe
alguns livros que são como buracos negros, ou que simulam sê-lo. Interessa-lhe
a sociabilidade: podemos imaginar um tipo simpático, atento, culto, sensível,
que é um bom filho e um bom amigo, um jovem sempre disposto a ajudar, ainda que
no fundo esse jovem seja uma bomba relógio, esse jovem escute com outro ouvido, esse jovem nos ajude com outro tipo de solidariedade.
Interessa-lhe a fala popular, o argot, o slang chileno que é nossa pobreza, mas
que também é uma das poucas riquezas que nos restam (o argot, o sexo, o
descomedimento automático), ainda que por trás do seu argot se esconda, como um
terrorista encurralado, o panorama final daquilo que os donos da pátria chamam
de pátria: um território antes tomado da morte e que agora a morte reconquista
com lentos passos de gigante. E escreve e às vezes, raramente, publica, mas lê
seus poemas, e nisto Rodrigo Lira é similar a tantos poetas latino-americanos
que nas décadas de setenta e oitenta vagam e leem seus poemas, só que Rodrigo
Lira, diferentemente da maioria dos seus contemporâneos, não é um habitante
involuntário de um sonho incompreensível, mas um habitante voluntário, alguém
que mantém os olhos abertos em meio ao pesadelo. Sua discrição, no entanto,
essa discrição que faz com que ele seja um pássaro raro, leva-o também a
suavizar na medida do possível a alteridade que as boas consciências tentam
fazer passar pela normalidade. Gosta de passear, gosta de ler seus poemas em
público, procura se vestir bem, ao menos procura parecer asseado na medida do
possível. Em 1981 decide se suicidar. Para quebrar a seriedade do assunto, em
sua missiva final explica que se mata para protestar contra o recente aumento de
preço do pão. Ou do açúcar. Não me lembro. Escrevo essa nota sem livros de
consulta. Enrique Lihn é um dos poucos que escreveu algo sobre Rodrigo Lira,
quando este já estava morto, e não tenho em mãos o texto de Lihn. Creio
recordar que se meteu em uma banheira cheia de água quente e que cortou as
veias. Essa sempre me pareceu uma forma muito valente e reflexiva de morrer. A
morte não chega de súbito, mas lentamente, o suicida tem muito tempo para
pensar, para recordar os bons e os maus momentos, para se despedir mentalmente dos
seres queridos ou odiados, para recitar de memória algum verso, para chorar. No
caso de Rodrigo Lira, não estranharia que também tivesse tido tempo para rir. O
melhor da América Latina são nossos suicidas, voluntários ou não. Temos os
piores políticos do mundo, os piores capitalistas do mundo, os piores
escritores do mundo. Na Europa somos conhecidos por nossas queixas e por nossas
lágrimas de crocodilo. A América Latina é o que há de mais parecido com a
colônia penal de Kafka. Tratamos de enganar alguns europeus cândidos e alguns
europeus ignorantes com obras péssimas, onde apelamos à sua boa vontade, ao
politicamente correto, às histórias do bom selvagem, ao exotismo. Nossos
universitários e intelectuais querem apenas dar aulas em alguma universidade perdida
do Meio Oeste norte-americano, assim como antes a meta era viajar e viver à
custa do mecenato neo-stalinista, o que para nós constituía um êxito sem
precedentes. Somos especialistas em conseguir bolsas, bolsas que às vezes nos
concedem mais por pena do que por merecimentos. Nosso discurso sobre a riqueza
é o que há de mais parecido com um livro barato de autoajuda. Nosso discurso
sobre a pobreza é um discurso imaginário onde só ressoam as vozes de loucos que
falam de ressentimento e frustração. Odiamos os argentinos porque os argentinos
são aquilo que de mais parecido aos europeus temos em nossos lares. Os
argentinos nos odeiam porque somos o espelho onde eles se veem como o que são,
quer dizer, como americanos. Somos racistas no sentido mais puro: o que quer
dizer que somos racistas porque estamos mortos de medo. Mas temos suicidas
exemplares. Penso em Violeta Parra, que compôs algumas das melhores canções de
nosso continente e que brigou com todos e com tudo e disparou uma bala em si
mesma junto à tenda onde toda noite cantava e uivava. Penso em Alfonsina
Storni, a mulher mais talentosa da Argentina, que se afogou no Rio da Prata.
Penso em Jorge Cuesta, escritor mexicano e homossexual, que antes de meter a
cabeça num saco, emasculou-se e cravou seus testículos na porta do seu
dormitório, como um último presente não correspondido. Estes suicidas
exemplares e seus irmãos gêmeos, os que permanecem sob a tormenta (entre outras
coisas não porque gostem de permanecer ali mas porque não têm outro lugar para
onde ir), fazem pensar que nem tudo está perdido, como a onda de neoliberalismo
e o novo renascer clerical pretendem elevar a categoria de dogma. Somos filhos
da Ilustração, dizia Rodrigo Lira enquanto passeava por uma Santiago que mais
do que qualquer outra coisa parecia um cemitério de outro planeta. Quer dizer,
somos seres humanos razoáveis (pobres, mas razoáveis), não enteléquias saídas
de um manual de realismo mágico, não postais para consumo externo e para abjeto
disfarce interno. Quer dizer: somos seres que podem optar em um momento
histórico pela liberdade, e também, ainda que isso resulte em paradoxo, pela
vida. Aos inumeráveis assassinados pela repressão, há que se acrescentar os
suicidados pela razão, a favor da razão, que é também o lugar onde vive o
humor. Disso sabia Rodrigo Lira, que como tantos poetas latino-americanos
morreu sem nunca publicar. Em 1984, por uma pequena editora, apareceu um
conjunto de seus poemas intitulado Proyecto
de obras completas. O livro, em 1998, era impossível de ser encontrado em
qualquer livraria. Ninguém, contudo, se deu ao trabalho de reeditá-lo. No Chile
são editados muitos livros, a maioria bem ruins. A elegância de Rodrigo Lira,
seu desdém, tornam-no inalcançável aos editores. Os covardes não editam os
valentes.
Texto de Roberto Bolaño (1953-2003) incluído no livro Entre paréntesis (2004).
sábado, 31 de agosto de 2013
Alguns sonhos
Já vão secando os Sonhos
desta vida
observem-nos lá em cima, alguns
no céu, como brilham!
Abaixo, longínquo, o arco-íris brinca
com a
escuridão
enquanto sobre as rochas canta
meu coração confundido
Então isto é morrer, o Sonho Azul?
pergunto aos meus irmãos
da Região Celeste.
*
KIÑEKE PEWMA
Petu amkvy ti mogen ñi Pewma
azkintufimvn wenu, kiñeke Wenu
Mapu mew, ñi wilvfvn
Nag mapu, kamapu mew,
awkantumekey ti relmu zumiñ egu
petu ñi piwke vlkantumekey wente
kura mu
kimvwkvlelay
Feyta anta ti lan, ti
Kallfv Pewma?
ramtunfiñ ñi pu peñi Kallfv
mapu mvlelu.
*
ALGUNOS SUEÑOS
Se
van secando los Sueños
de la vida
mírenlos
arriba, algunos
en
el cielo, cómo brillan
Abajo,
lejano, el arcoiris juega
con la oscuridad
mientras
sobre las rocas canta
mi
corazón confundido
¿Es
este el morir, el Sueño Azul?
pregunto a mis hermanos
de la Región Celeste.
Poema de Elicura Chihuailaf (1952). Do livro De sueños azules e contrasueños (1995). Autor mapuche e chileno,
escreve uma obra sobretudo bilíngue, em mapundungún e castelhano.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Vincent Huidobro
Este é Vincent
Huidobro, poeta francês nascido em Santiago do Chile.
Entre os artistas
sul-americanos que vivem em Paris, Huidobro encarna uma figura destacada e
interessante.
Barbeado, de cabelo
curto e olhos iluminados, põe em seus gestos e em seu modo de falar toda a
estranha fogosidade e vivacidade do seu pensamento. Conversa com nervosismo e
em voz alta e clara.
Estamos em sua sala
de trabalho, pequena sala desordenada em que se confundem os livros, as
revistas, os discos de vitrola, as caixas de charuto e as esculturas e máscaras
negras, com os poemas desenhados de sua celebrada exposição do ano passado.
A vida de Huidobro
é tão agitada e dinâmica como suas teorias. Acaba de chegar da Alemanha, onde
deu conferências e discutiu com matemáticos, cineastas e filósofos. Esteve na
Rússia e já pensa em ir à Suécia e à Noruega...
Suas atividades são
múltiplas. Interessado no problema social da Índia, escreve e publica um livro
de propaganda e de combate revolucionário: "Finis Britania".
Isto gera a
antipatia dos ingleses, um abraço postal de Mahatma Ghandi... e uma rápida
desventura: entre a noite e a manhã, desaparece. Sua família e seus amigos
pensam numa desgraça. Três dias depois está de novo em sua casa. Foi
sequestrado. Regressa de sua prisão como de uma viagem ao campo: sorridente, um
pouco despenteado...
Todos os jornais de
Paris reproduzem seu retrato. Entrevistam-no. Comove por algumas horas a
atenção pública.
- Sei que muitos
riram do atentado de que fui vítima, diz. Os jornalistas trataram o assunto
como piada. E, acredite, foi apenas despeito. Quando voltei para esta casa, uma
centena de repórteres me esperava. De todos os jornais do mundo: ingleses,
americanos, franceses, russos, suecos, italianos... Todos queriam saber. Todos
queriam ser os primeiros a noticiar a solução do caso. E eu expulsei todos eles
de casa sem lhes dizer nada.
Alguns amigos,
entre eles Picasso, Cocteau, Lipchitz, me disseram que não era certo fazer isso
com os jornalistas. Que bobagem! Eu tenho muito que fazer e além disso não sou
um fantoche. Você quer saber quem foram os autores do sequestro? Seus nomes já
estão em poder da polícia. Foram dois scouts
irlandeses... Mas isso é coisa passada. Bem passada. Agora estou ocupado com
meu filme. Você sabia que eu estava preparando um filme? Não sabem disso no
Chile? Será algo novo, muito novo em Paris. Mosjowskine é um ator de talento e
dirigido por mim fará uma coisa boa. Eu tenho condições de ser o melhor diretor
cinematográfico. O melhor ator também. Gostaria de interpretar um Napoleão.
Você notou minha grande semelhança com Napoleão? (Aqui o poeta se levanta e põe
uma mecha de cabelo sobre a testa, cruza um braço sobre o peito, leva o outro
às costas e seus olhos fitam um horizonte distante e imaginário). A pose dura
um segundo. Em seguida continua:
- Meu filme se
chamará "Cagliostro". Além disso, vou regularizar a aparição de minha
revista "Creation". E este ano devo publicar pelo menos quatro livros.
Há um de estética e outro de crítica. De crítica acerba. É necessário fustigar
os imbecis com um chicote para mantê-los distantes, como se faz com os cães.
Para os imbecis minha palavra é um chicote. Este livro chamará a atenção da
América profundamente. Vai se chamar "Tierra Natal", e, claro,
versará sobre assuntos da vida chilena. Os outros dois são de poesia.
Retornar ao Chile?
Quem sabe! Paris, só Paris, é a cidade em que se pode viver dignamente. Eu
conheço todos os países da terra, fui a todos os lugares, e, cada vez que me
distancio de Paris, me distancio com dor. E cada vez que retorno meu coração
treme, estremece de alegria.
Ir ao Chile... Sim.
Desejo ir, fazer uma viagem. Mas esta viagem não está próxima.
Lá me acusam de
antipatriota, porque apareço nas Antologias francesas como poeta francês. Eu
tenho culpa? Além disso, ninguém percebe, ninguém se lembra de que diante de
qualquer belo monumento, diante de qualquer grande obra da humanidade, eu nunca
deixo de pensar: Não fizemos nada no Chile! Não temos nada: nem arquitetura,
nem música, nem poesia. E este é o verdadeiro patriotismo: condoer-se dos
defeitos, chorar sobre os vazios e desejar e lutar para extinguir estes
defeitos e preencher estes vazios.
Huidobro fala com
uma loquacidade admirável. Salta de um tema para outro com agilidade e
destreza. Às vezes se enrola, às vezes tropeça, mas um ligeiro movimento de
pés, uma sábia flexão... e já o temos de novo disposto a outro salto.
- Eu descobri, eu
criei uma Arte nova.
Mostrando-me uma
escultura de Lipchitz, diz:
- Veja que
maravilha...
É uma escultura
cubista. Um racimo de arestas e de planos que se cortam e se enlaçam. Eu
observo, compreendo como é feito, compreendo que é uma coisa que está fora do
cotidiano, uma coisa "criada", enfim, mas confesso que esta criação
não me produz nada além de uma impressão de aridez e frieza.
Huidobro se exalta.
- Como você não
sente isso? É encantador! Que nome leva? Não sei. Não precisa de nome. É uma
escultura, como uma fruta é uma fruta. Tem sabor e qualidade e vida própria.
Observe bem.
Há uma linha
inapagável, um abismo intransponível entre a Arte e a Realidade. O artista não
deve nos dar o habitual. Deve criar. Até agora se fez arte "em torno
de". Há que se rechaçar o poético, o pictórico ou o musical, e criar a
poesia, a pintura e a música. O poema, como toda obra de arte, é um invento.
Seus elementos estão dispersos no espaço. Encontrando-os e unindo-os no tempo,
cria-se o poema. E o poema, assim, terá vida própria como a árvore e o pássaro.
É preciso expulsar
o anedotário, evitar o relato. Só o absurdo, o não habitual, está dentro da
arte. Os fatos, as ações, estão dentro da vida real.
A poesia pura,
segundo Huidobro, começa com o criacionismo. Até agora só se fez relato
poético. O culto da lembrança deu às coisas uma beleza falsa. Platão já dizia
isso muito claramente: "As coisas são belas apenas por causa da
lembrança". O poeta, o artista, deve tomar as coisas, e transformá-las,
criar a beleza, inventar a beleza.
Assim o homem
primitivo tomou a pedra, tomou a madeira, transformou-as e inventou,
"criou" a roda, a flecha, o copo. Como avaliar a qualidade de uma
obra criada? Como saber se ela é boa ou má se não existe nenhum ponto de
controle?
Pergunta absurda. Uma
obra de arte será boa quando conte com os elementos indispensáveis da obra de
arte; quando dentro dela não haja elementos estranhos.
Uma laranja é boa
quando não tem sabor de pera ou de maçã... ou de uma laranja ruim. Como se faz,
como se cria um poema? Isto é impertinente e ridículo. Uma mariposa chama nossa
atenção e nos enche de admiração. Não ocorre a ninguém perguntar como se faz
uma mariposa.
E o poema ou
qualquer obra de arte criada tem tanta vida e pode ter tanta beleza como um
nenúfar ou um rouxinol.
E agora vamos a
Montparnasse, iremos ao "Jockey". Estão lá uns negros da África que
tocam muito bem e certas mulheres douradas cuja dança comove...
Paris, 1924
Texto
de Alberto Rojas Jiménez (1900-1934), poeta e jornalista nascido em Valparaíso,
e um dos responsáveis pelo “Primer Manifiesto Agú”, uma das primeiras
manifestações da vanguarda chilena, em 1921. O texto foi retirado de Chilenos en París, livro de relatos e
crônicas.
A fotografia de Huidobro que abre o post foi tirada por Hans Arp.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
sábado, 24 de agosto de 2013
Poeta livre
Cuba sí.
Yanquis también.
NICANOR PARRA
Chile?
Depende...
Poema de Roque Dalton (1935-1975). A primeira fuga do Otraversão do território chileno vai até El Salvador, mas segue em diálogo com o país andino e com a postura política de Nicanor Parra, aqui referida com alguma ironia por Dalton, que põe o poeta chileno em epígrafe.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Nicanor Parra: Poesia Política
Um preconceito originado
nos tempos da "poesia pura", e exacerbado nesta nossa década de
recesso político, afirma que os problemas da polis poderiam sujar a pureza das essências líricas, gerando uma
poesia panfletária e ideológica de qualidade inferior. Essa ideia não resiste à
menor confrontação com a história da literatura. Os grandes poetas gregos,
latinos, medievais, modernos e contemporâneos fizeram "poesia
política" numa medida considerável. Poderíamos citar, em nosso século, uma
grande variedade de registros: o tom profético de Trakl, George e Edith Sitwel;
a maneira mista - a perspectiva intimista e pessoal de Kavafis, Machado, Eliot,
Quasimodo e Pasternak; o messianismo de Blok, a fantasia irônica de Maiakovski,
a militância aberta e programática de Brecht, Aragon, Alberti e, especialmente,
do próprio Neruda. É verdade que este último cai, muitas vezes, no panfletário,
no pedagógico, na explicação e na apologia, tornando evidente a especial
dificuldade do gênero; mas, sem dúvida, é autor de certa poesia política de
grande valor. Também o é Nicanor Parra, ao seu próprio modo, que, em contraste
com a seriedade nerudiana - um conteúdo revolucionário sob uma linguagem
"tradicional" -, consegue a subversão mais íntegra da linguagem
mesma, operando através desse elemento político por excelência que é a sua
ironia.
Esta antologia de sua Poesía política (Editorial Bruguera),
com brioso prólogo de Enrique Lafourcade, se constrói desde 1950 até hoje.
Contém excelentes poemas que não são políticos - como "Defensa de Violeta
Parra" -, outros que o são em sentido amplo - batalhas campais de robôs e
energúmenos, fantasmas ecológicos, crítica da vida nacional -, e muitos que são
políticos em sentido estrito e direto. Aqueles que pedem a esta poesia que
"tome partido" se surpreendem com a ubiquidade ideológica do autor,
que torna possível ler seus poemas - escritos, em sua maioria, durante os
quatro últimos regimes do país - de forma quase intercambiável. Obviamente, há
muitos que trazem inscritos seu momento e seu alvo: a Unidad Popular, em poemas
como esses: "Revolución/ revolución/ cuantas contrarrevoluciones/ se
cometen en tu nombre", ou "La realidad no cabe en un zapato chino/
menos aún en un bototo ruso"; enquanto que se trata da atualidade em
versos como esses: "Bese la bota que lo pisotea/ no sea puritano hombre x
Dios" ou mesmo: "Ayer/ de tumbo en tumbo/ hoy/ de tumba en
tumba". Por outro lado, são
quase atemporais as referências de poemas como "Los límites de Chile"
que, em 1968, diz: "Chile limita al Norte con el Cuerpo de Bomberos,/ al
Sur con el Ministerio de Educación,/ al Este con la Cordillera de Nahuelbuta/ y
al Oeste con el vacío de las olas del Océano que se nombró más arriba,/al Sur
con González Videla./ En el medio hay una gran plasta rodeada de militares,
curas y normalistas/ que succionan a través de cañerías de cobre". Inclusive,
há na antologia poemas duplos ou "correspondentes", cujo núcleo é o
mesmo, mas que se matizam de outro modo, segundo o regime contra o qual
apontam.
Esta versatilidade ideológica
provocou contra o autor a acusação de ser "palhaço da burguesia",
feita por certa esquerda. É o previsível para um autor que dispara quase
simultaneamente contra os quatro pontos cardeais, que vive rompendo os esquemas
e os rótulos, e que se deixaria tipificar apenas com o vago título de
anarquista. No aspecto formal, por sua vez, há uma ambiguidade intrínseca às
suas próprias ferramentas poéticas, como a propriedade ventríloqua da poesia
dramática: "Cuándo van a entender/ éstos son parlamentos/ dramáticos/
Éstos no son/ pronunciamientos/ políticos". Caberia observar algo parecido
acerca da sua ironia, ubíqua e giratória por natureza, também semelhante à sua
habilidade para falar nas entrelinhas: "Confío 100% en el lector/ estoy
convencido de que hasta los.../civiles / son capaces de leer entre
líneas".
Mais interessante que o
trabalho convencional de classificar o poeta político é a análise de sua forma
de operar politicamente no interior da linguagem. A este respeito, eu aplicaria
os conceitos que um brilhante ensaísta chileno, Martín Hopenhayn, usa para
definir a operação verbal e crítica de Kafka, guardadas as diferenças da
analogia. Hopenhayn chama "literatura do trapézio" àquela que exagera
certas feições do seu objeto - como uma caricatura - para feri-lo e
transcendê-lo: violenta este objeto, empurra-o até seus limites e assim
evidencia sua limitação; enfrenta a linguagem como discurso ideológico e
justificação da ordem, a linguagem como discurso insurreto: "O escritor é
um trapezista que vende a alma ao diabo para derrotá-la". Pois bem, a
poesia política de Parra é muito essencialmente uma "literatura do
trapézio" e também, se quisermos, da dança na corda bamba. Quando Parra
assume, de certa ordem estabelecida, expressões como "por la libre determinación
de los pueblos/ por un mundo sin explotadores/ el orden público está
asegurado", o que ele faz é precisamente inverter o sentido do discurso
ideológico: subverter. De
um slogan convencional extrai seu
efeito inverso, a caricatura que fere e transcende: "La izquierda y la
derecha unidas/ jamás serán vencidas".
A ironia política e o
humor negro de Parra injetam, no interior de um discurso convencional já dado,
uma carga de profundidade, uma bomba relógio. Recordemos o enunciado das
típicas charadas matemáticas para nos darmos conta da operação verbal
subversiva que o poeta cumpre ao reescrever sobre a base implícita dessa
convenção: "Poema/ Problema:/ Ciento 4 civiles en un cajón/ cuántas orejas
y patas son". Um mecanismo análogo opera no terrível humor negro deste
Chiste: "De aparecer apareció/ pero en una lista de desaparecidos".
É evidente que nem todos
os poemas políticos de Parra se deixam explicar por esse procedimento, mas isso
ocorre em muitos deles, e sobretudo nos melhores. Há outros que pagam um
excessivo tributo à ideia, à conclusão ou à moral da história, sem verbalizar a
operação subversiva. Mas a antologia está repleta destes acertos que justificam
o título - Poesía política - como
sólida dimensão de toda sua obra poética.
Texto de Ignacio Valente -
que, em realidade, é um pseudônimo de José Miguel Ibáñez Langlois, padre,
poeta, teólogo e crítico literário nascido em Santiago do Chile. Aos leitores
de Noturno do Chile, livro de Roberto Bolaño, não passarão despercidas as
semelhanças entre as figuras de Langlois e do narrador do romance, Sebastián
Urrutia Lacroix. Este texto foi publicado no El Mercurio, em 18 de dezembro de
1983. Nos posts seguintes, mais política+Parra, IgnacioXBolaño, etc.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
A LÓGICA
Aponte em que consiste o vício de construção do
seguinte silogismo:
Mortal
era Sócrates.
Pois
bem, eu sou parisiense.
Logo,
todos os pássaros cantam.
Quando você "supõe resolvido o problema", por
que continua, então, a demonstração? Não seria
melhor que fosse dormir?
Poema de Juan Luis Martínez (1942-1993). Do livro La nueva novela (1977)
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Abro a pálpebra muda
fecho e verto pra dentro o sol do olho
minha anima
minha alma procuro
entre liquens negros algas vejo
boiar
meu rosto carcomido por línguas
Lá vai este olho como boca sedenta O
que procura
De cima a baixo
Poema de Soledad Fariña (1943). Do livro Albricia (1988).
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