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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Espejismos y realidades de la poesía chilena actual (excerto)




(...)

Toda poesia é uma forma de comunicação, de fraternidade, um ato de amor. Apenas os obcecados pela incomunicabilidade e pela obscuridade podem pensar o contrário. Com razão Gonzalo Rojas disse: "... se minha palavra não tivesse sido escutada: ah, então não teria sido igual! Assim vou. Abrindo o mundo, como posso, com minha palavra, que é apenas parte da palavra dos poetas". É claro que existe uma poesia hermética, por necessidade profunda (por ora acessível apenas a uma minoria), como a de Humberto Díaz Casanueva, por exemplo. Mas junto a estes qualificados e necessários poetas existem os pseudopoetas que se amparam na facilidade de expressar em linhas mal cortadas a dispersão mental, a a-lógica, ou que despejam suas deliquescências adolescentes, seu vanguardismo anacrônico, os que elevam o lugar comum e o discurso de jornal à categoria do espírito, ou os que querendo ser mais Parra do que Parra incorrem em uma antipoesia que costuma não provocar riso, mas lástima. Todos eles, e não são poucos, criam uma confusão que prejudica notoriamente a difusão e o conhecimento da poesia como ela é.

Em que pese toda a grande fama da poesia chilena, e o lugar egrégio que ela ocupa segundo todos dizem reconhecer, a grande maioria dos poetas se bate com o problema de não ter editor, não poder dar a conhecer sua mensagem. Os editores não são filantropos, é claro, e afirmam que poesia não vende, ainda que façam muito pouco para difundi-la. De vez em quando se interessam pelas antologias, pois estas vendem, mas, para a desgraça dos poetas, na maior parte das vezes não são senão "Antojolías"[1] ou improvisações feitas por poetas ou críticos de boa ou má vontade (fora as antologias de Molina e Araya, Selva Lírica, a de Anguita e Teitelboim e, com todas as suas distorções, a de Jorge Elliott, seria difícil encontrar outras criteriosas). No ano passado apenas um livro de um poeta das últimas gerações foi publicado por uma editora comercial: El Viento de los Reinos, de Efraín Barquero. La fuga de Sebasatián, de Jaime Gómez Rogers, apareceu graças a ter vencido o Premio Alerce de la Sociedade de Escritores, que está sob ameaça de ser extinto. Mesmo Gonzalo Rojas teve de financiar grande parte do seu Contra la muerte, que no entanto apareceu em Cuba, e a viúva de Rosamel del Valle, Therése Dulac, financiou a edição póstuma de Adiós enigma tomasol. Assim o poeta, sobretudo o poeta jovem, deve publicar-se arriscadamente, por conta própria, e ao fim, seu livro, sem contar com distribuição, está condenado a ser enviado aos amigos, a não ser que o deixe dormindo num sótão. Situações todas elas deprimentes que contribuem para a separação entre poeta e público. E apenas um tolo pedante ou um pedante tolo pode consolar-se atualmente da pouca difusão dos seus livros dizendo que acontecia o mesmo com Baudelaire. Já não é possível se conformar com a ideia da poesia como um patrimônio de uns poucos e sábios iniciados. Se fosse assim, ela seria um luxo, e não uma necessidade, e o poeta, um ser antediluviano a ponto de extinguir-se, duas coisas fora de toda realidade. Todo criador verdadeiro sabe - e o experimentou - que a poesia é uma linguagem de fraternidade, um meio de alterar a vida individual e coletiva, um sistema de correlação e conhecimento entre homem e natureza.



[1] Trocadilho com as palavras antología e antojo – que significa qualquer coisa como um julgamento apressado, feito sem uma verdadeira análise.



Excerto de um texto de Jorge Teillier (1935-1996).

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Os perdidos




É difícil falar de uma figura emblemática, uma figura que nos sirva de símbolo ou de ponte entre o século XX e o século XXI. Sobretudo na América Latina, onde, por um lado, foram abundantes as figuras emblemáticas trágicas e as figuras emblemáticas caricaturais, os pais da pátria tanto de direita como de esquerda que afundaram o continente em algo que poderia ser uma mescla de pântano de areias movediças e de Las Vegas. Mas me ocorre agora que essa figura poderia ser Rodrigo Lira e que se Rodrigo Lira lesse isso ele começaria a rir. Sua vida foi, sem dúvidas, um alarde de discrição, só que a discrição, em Rodrigo, não possuía as conotações que costuma ter no resto do planeta ou ao menos na América Latina, onde é sinônimo de silêncio e também de castração. A discrição, para Rodrigo Lira, era uma mescla perigosa de elegância e tristeza. Uma elegância e uma tristeza que podiam ser extremas, que costumavam ser extremas, e que em público (e suponho que também na privacidade, o que neste caso quer dizer: na solidão irrestrita) aparecia armada dos pés à cabeça com o humor mais cáustico, como se Rodrigo fosse um cavaleiro medieval perdido num sonho que logo se transformou em pesadelo. Era poeta, claro. Às vezes é tentador crer que foi o último poeta do Chile, um dos últimos poetas da América Latina. Nasceu em 1949, o que significa que tinha vinte e quatro anos quando ocorreu o golpe militar. Pelos seus textos, o leitor tem às vezes a impressão de que seu mundo, a geografia pela qual se movia, estava circunscrito a algumas faculdades universitárias e a umas poucas bibliotecas santiaguinas, cidade da qual era originário. Muitos de seus poemas são comentários marginais à obra de alguns grandes poetas chilenos, os quais ele frequentou e dos quais ele esgotou a paciência: à primeira vista parecem brincadeiras, leituras frívolas, insultos proferidos por um tipo relativamente jovem, que não quer crescer, que não quer entrar no mundo adulto. Por trás das invectivas, por trás do riso que provoca no poema o carnaval imóvel da literatura, é possível encontrar outras coisas, entre elas o horror e um olhar profético que anuncia o fim da ditadura mas não o fim da estupidez, o fim da presença militar mas não o fim das areias movediças e do silêncio que a presença militar instalou, tudo faz pensar que para sempre ou que por um tempo tão prolongado que é, para efeitos de vida humana, semelhante à eternidade, na vida civil chilena. Profético, visionário, são outras as coisas, no entanto, que interessam de verdade a Rodrigo Lira. Interessam-lhe algumas mulheres que indefectivelmente o abandonam ou nem sequer falam com ele. Interessa-lhe seu cabelo, que vai perdendo, e à medida que a calvície cresce suas costeletas, antes diminutas, vão crescendo também, até formarem costeletas volumosas, costeletas de prócer da Independência. Interessam-lhe as camisas floridas. Interessam-lhe alguns livros que são como buracos negros, ou que simulam sê-lo. Interessa-lhe a sociabilidade: podemos imaginar um tipo simpático, atento, culto, sensível, que é um bom filho e um bom amigo, um jovem sempre disposto a ajudar, ainda que no fundo esse jovem seja uma bomba relógio, esse jovem escute com outro ouvido, esse jovem nos ajude com outro tipo de solidariedade. Interessa-lhe a fala popular, o argot, o slang chileno que é nossa pobreza, mas que também é uma das poucas riquezas que nos restam (o argot, o sexo, o descomedimento automático), ainda que por trás do seu argot se esconda, como um terrorista encurralado, o panorama final daquilo que os donos da pátria chamam de pátria: um território antes tomado da morte e que agora a morte reconquista com lentos passos de gigante. E escreve e às vezes, raramente, publica, mas lê seus poemas, e nisto Rodrigo Lira é similar a tantos poetas latino-americanos que nas décadas de setenta e oitenta vagam e leem seus poemas, só que Rodrigo Lira, diferentemente da maioria dos seus contemporâneos, não é um habitante involuntário de um sonho incompreensível, mas um habitante voluntário, alguém que mantém os olhos abertos em meio ao pesadelo. Sua discrição, no entanto, essa discrição que faz com que ele seja um pássaro raro, leva-o também a suavizar na medida do possível a alteridade que as boas consciências tentam fazer passar pela normalidade. Gosta de passear, gosta de ler seus poemas em público, procura se vestir bem, ao menos procura parecer asseado na medida do possível. Em 1981 decide se suicidar. Para quebrar a seriedade do assunto, em sua missiva final explica que se mata para protestar contra o recente aumento de preço do pão. Ou do açúcar. Não me lembro. Escrevo essa nota sem livros de consulta. Enrique Lihn é um dos poucos que escreveu algo sobre Rodrigo Lira, quando este já estava morto, e não tenho em mãos o texto de Lihn. Creio recordar que se meteu em uma banheira cheia de água quente e que cortou as veias. Essa sempre me pareceu uma forma muito valente e reflexiva de morrer. A morte não chega de súbito, mas lentamente, o suicida tem muito tempo para pensar, para recordar os bons e os maus momentos, para se despedir mentalmente dos seres queridos ou odiados, para recitar de memória algum verso, para chorar. No caso de Rodrigo Lira, não estranharia que também tivesse tido tempo para rir. O melhor da América Latina são nossos suicidas, voluntários ou não. Temos os piores políticos do mundo, os piores capitalistas do mundo, os piores escritores do mundo. Na Europa somos conhecidos por nossas queixas e por nossas lágrimas de crocodilo. A América Latina é o que há de mais parecido com a colônia penal de Kafka. Tratamos de enganar alguns europeus cândidos e alguns europeus ignorantes com obras péssimas, onde apelamos à sua boa vontade, ao politicamente correto, às histórias do bom selvagem, ao exotismo. Nossos universitários e intelectuais querem apenas dar aulas em alguma universidade perdida do Meio Oeste norte-americano, assim como antes a meta era viajar e viver à custa do mecenato neo-stalinista, o que para nós constituía um êxito sem precedentes. Somos especialistas em conseguir bolsas, bolsas que às vezes nos concedem mais por pena do que por merecimentos. Nosso discurso sobre a riqueza é o que há de mais parecido com um livro barato de autoajuda. Nosso discurso sobre a pobreza é um discurso imaginário onde só ressoam as vozes de loucos que falam de ressentimento e frustração. Odiamos os argentinos porque os argentinos são aquilo que de mais parecido aos europeus temos em nossos lares. Os argentinos nos odeiam porque somos o espelho onde eles se veem como o que são, quer dizer, como americanos. Somos racistas no sentido mais puro: o que quer dizer que somos racistas porque estamos mortos de medo. Mas temos suicidas exemplares. Penso em Violeta Parra, que compôs algumas das melhores canções de nosso continente e que brigou com todos e com tudo e disparou uma bala em si mesma junto à tenda onde toda noite cantava e uivava. Penso em Alfonsina Storni, a mulher mais talentosa da Argentina, que se afogou no Rio da Prata. Penso em Jorge Cuesta, escritor mexicano e homossexual, que antes de meter a cabeça num saco, emasculou-se e cravou seus testículos na porta do seu dormitório, como um último presente não correspondido. Estes suicidas exemplares e seus irmãos gêmeos, os que permanecem sob a tormenta (entre outras coisas não porque gostem de permanecer ali mas porque não têm outro lugar para onde ir), fazem pensar que nem tudo está perdido, como a onda de neoliberalismo e o novo renascer clerical pretendem elevar a categoria de dogma. Somos filhos da Ilustração, dizia Rodrigo Lira enquanto passeava por uma Santiago que mais do que qualquer outra coisa parecia um cemitério de outro planeta. Quer dizer, somos seres humanos razoáveis (pobres, mas razoáveis), não enteléquias saídas de um manual de realismo mágico, não postais para consumo externo e para abjeto disfarce interno. Quer dizer: somos seres que podem optar em um momento histórico pela liberdade, e também, ainda que isso resulte em paradoxo, pela vida. Aos inumeráveis assassinados pela repressão, há que se acrescentar os suicidados pela razão, a favor da razão, que é também o lugar onde vive o humor. Disso sabia Rodrigo Lira, que como tantos poetas latino-americanos morreu sem nunca publicar. Em 1984, por uma pequena editora, apareceu um conjunto de seus poemas intitulado Proyecto de obras completas. O livro, em 1998, era impossível de ser encontrado em qualquer livraria. Ninguém, contudo, se deu ao trabalho de reeditá-lo. No Chile são editados muitos livros, a maioria bem ruins. A elegância de Rodrigo Lira, seu desdém, tornam-no inalcançável aos editores. Os covardes não editam os valentes.


Texto de Roberto Bolaño (1953-2003) incluído no livro Entre paréntesis (2004).

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Nicanor Parra: Poesia Política




Um preconceito originado nos tempos da "poesia pura", e exacerbado nesta nossa década de recesso político, afirma que os problemas da polis poderiam sujar a pureza das essências líricas, gerando uma poesia panfletária e ideológica de qualidade inferior. Essa ideia não resiste à menor confrontação com a história da literatura. Os grandes poetas gregos, latinos, medievais, modernos e contemporâneos fizeram "poesia política" numa medida considerável. Poderíamos citar, em nosso século, uma grande variedade de registros: o tom profético de Trakl, George e Edith Sitwel; a maneira mista - a perspectiva intimista e pessoal de Kavafis, Machado, Eliot, Quasimodo e Pasternak; o messianismo de Blok, a fantasia irônica de Maiakovski, a militância aberta e programática de Brecht, Aragon, Alberti e, especialmente, do próprio Neruda. É verdade que este último cai, muitas vezes, no panfletário, no pedagógico, na explicação e na apologia, tornando evidente a especial dificuldade do gênero; mas, sem dúvida, é autor de certa poesia política de grande valor. Também o é Nicanor Parra, ao seu próprio modo, que, em contraste com a seriedade nerudiana - um conteúdo revolucionário sob uma linguagem "tradicional" -, consegue a subversão mais íntegra da linguagem mesma, operando através desse elemento político por excelência que é a sua ironia.

Esta antologia de sua Poesía política (Editorial Bruguera), com brioso prólogo de Enrique Lafourcade, se constrói desde 1950 até hoje. Contém excelentes poemas que não são políticos - como "Defensa de Violeta Parra" -, outros que o são em sentido amplo - batalhas campais de robôs e energúmenos, fantasmas ecológicos, crítica da vida nacional -, e muitos que são políticos em sentido estrito e direto. Aqueles que pedem a esta poesia que "tome partido" se surpreendem com a ubiquidade ideológica do autor, que torna possível ler seus poemas - escritos, em sua maioria, durante os quatro últimos regimes do país - de forma quase intercambiável. Obviamente, há muitos que trazem inscritos seu momento e seu alvo: a Unidad Popular, em poemas como esses: "Revolución/ revolución/ cuantas contrarrevoluciones/ se cometen en tu nombre", ou "La realidad no cabe en un zapato chino/ menos aún en un bototo ruso"; enquanto que se trata da atualidade em versos como esses: "Bese la bota que lo pisotea/ no sea puritano hombre x Dios" ou mesmo: "Ayer/ de tumbo en tumbo/ hoy/ de tumba en tumba". Por outro lado, são quase atemporais as referências de poemas como "Los límites de Chile" que, em 1968, diz: "Chile limita al Norte con el Cuerpo de Bomberos,/ al Sur con el Ministerio de Educación,/ al Este con la Cordillera de Nahuelbuta/ y al Oeste con el vacío de las olas del Océano que se nombró más arriba,/al Sur con González Videla./ En el medio hay una gran plasta rodeada de militares, curas y normalistas/ que succionan a través de cañerías de cobre". Inclusive, há na antologia poemas duplos ou "correspondentes", cujo núcleo é o mesmo, mas que se matizam de outro modo, segundo o regime contra o qual apontam.

Esta versatilidade ideológica provocou contra o autor a acusação de ser "palhaço da burguesia", feita por certa esquerda. É o previsível para um autor que dispara quase simultaneamente contra os quatro pontos cardeais, que vive rompendo os esquemas e os rótulos, e que se deixaria tipificar apenas com o vago título de anarquista. No aspecto formal, por sua vez, há uma ambiguidade intrínseca às suas próprias ferramentas poéticas, como a propriedade ventríloqua da poesia dramática: "Cuándo van a entender/ éstos son parlamentos/ dramáticos/ Éstos no son/ pronunciamientos/ políticos". Caberia observar algo parecido acerca da sua ironia, ubíqua e giratória por natureza, também semelhante à sua habilidade para falar nas entrelinhas: "Confío 100% en el lector/ estoy convencido de que hasta los.../civiles / son capaces de leer entre líneas".

Mais interessante que o trabalho convencional de classificar o poeta político é a análise de sua forma de operar politicamente no interior da linguagem. A este respeito, eu aplicaria os conceitos que um brilhante ensaísta chileno, Martín Hopenhayn, usa para definir a operação verbal e crítica de Kafka, guardadas as diferenças da analogia. Hopenhayn chama "literatura do trapézio" àquela que exagera certas feições do seu objeto - como uma caricatura - para feri-lo e transcendê-lo: violenta este objeto, empurra-o até seus limites e assim evidencia sua limitação; enfrenta a linguagem como discurso ideológico e justificação da ordem, a linguagem como discurso insurreto: "O escritor é um trapezista que vende a alma ao diabo para derrotá-la". Pois bem, a poesia política de Parra é muito essencialmente uma "literatura do trapézio" e também, se quisermos, da dança na corda bamba. Quando Parra assume, de certa ordem estabelecida, expressões como "por la libre determinación de los pueblos/ por un mundo sin explotadores/ el orden público está asegurado", o que ele faz é precisamente inverter o sentido do discurso ideológico: subverter. De um slogan convencional extrai seu efeito inverso, a caricatura que fere e transcende: "La izquierda y la derecha unidas/ jamás serán vencidas".

A ironia política e o humor negro de Parra injetam, no interior de um discurso convencional já dado, uma carga de profundidade, uma bomba relógio. Recordemos o enunciado das típicas charadas matemáticas para nos darmos conta da operação verbal subversiva que o poeta cumpre ao reescrever sobre a base implícita dessa convenção: "Poema/ Problema:/ Ciento 4 civiles en un cajón/ cuántas orejas y patas son". Um mecanismo análogo opera no terrível humor negro deste Chiste: "De aparecer apareció/ pero en una lista de desaparecidos".

É evidente que nem todos os poemas políticos de Parra se deixam explicar por esse procedimento, mas isso ocorre em muitos deles, e sobretudo nos melhores. Há outros que pagam um excessivo tributo à ideia, à conclusão ou à moral da história, sem verbalizar a operação subversiva. Mas a antologia está repleta destes acertos que justificam o título - Poesía política - como sólida dimensão de toda sua obra poética.



Texto de Ignacio Valente - que, em realidade, é um pseudônimo de José Miguel Ibáñez Langlois, padre, poeta, teólogo e crítico literário nascido em Santiago do Chile. Aos leitores de Noturno do Chile, livro de Roberto Bolaño, não passarão despercidas as semelhanças entre as figuras de Langlois e do narrador do romance, Sebastián Urrutia Lacroix. Este texto foi publicado no El Mercurio, em 18 de dezembro de 1983. Nos posts seguintes, mais política+Parra, IgnacioXBolaño, etc.

terça-feira, 25 de junho de 2013

O poeta e o poder


Dos poetas chilenos que vivem no Chile, o mais interessante é Juan Luis Martínez. Dos que não vivem aqui, David Rosenmann Taub. Os dois, alheios a grupos, dedicam-se àquilo que lhes interessa - não à notoriedade, mas à poesia.

Comecemos pelo que está mais próximo. Publicou pouco; sua obra mais notável é "La Nueva Novela". Este romance é poesia em verso.

Por uma razão misteriosa, a poesia no Chile trata de todos os grandes temas com atrevimento; enquanto que a prosa de ficção apenas margeia vários dos mais cotidianos, profundos e urgentes. Este é o caso do poder. É bem sabido que os grandes assuntos literários são o amor (e seu contrário), o poder (e seu contrário) e a morte (e seu contrário...). O amor de Sicrano e Fulana, ou dois sicranos entre si, mais fulanas consigo, costuma ser o tema dos romances. A morte, assunto de todos, e a luta contra ela, também o são. Mas também o poder e seus contra-poderes, o ser objeto e, ainda mais, sujeito no exercício do poder? Como se isso fosse um assunto insignificante; como se a política - para chamar aquilo que é relativo ao poder com essa palavra complexa - não ocupasse o tempo dos chilenos, incluindo-se aí os escritores. Conversem com qualquer um. É mais do que provável, é certo que começará a conversa fazendo referência àqueles que mandam, uniformizados ou não, àqueles de quem dependemos com gosto ou desgosto; os que condicionam nossas vidas, quer estejamos dormindo ou acordados.

O poeta Martínez, em várias partes de sua "nueva novela" em verso, fala do atroz problema do poder. A última parte do seu livro, depois de singulares "Notas y referencias", se intitula "Epígrafe para un libro condenado: (La Política)". A epígrafe mesmo diz: "O pai e a mãe não têm o direito da morte sobre seus filhos, mas a Pátria, nossa segunda mãe, pode nos imolar para a imensa glória dos homens políticos. F. Picabia".

"La desaparición de una familia", ainda que o autor não o tenha concebido dessa forma, é o maior poema de desaparecidos de que se tem memória. O poeta sempre fala daquilo que ocorre, ainda que não o saiba. Assim, repete ao final de cada estrofe:

"al menor descuido se borrarán las señales de ruta
y de esta vida al fin, habrás perdido toda esperanza".
"al menor descuido olvidarás las señales de ruta"
"al menor descuido confundiréis las señales de ruta"
"al menor descuido ya no escucharás las señales de ruta".

E ao final:

"nunca hubo ruta ni señal alguna
y de esta vida al fin, he perdido toda esperanza".

O grande gênero da literatura no Chile é a poesia lírica. Fragmentários, contraditórios, incoerentes, os pobres líricos revelam a verdade espiritual de uma sociedade que não é muito completa, nem unívoca, nem congruente. Os poetas no Chile se atrevem a enfrentar-se a si mesmos, enfrentam aquilo que os rodeia e esta realidade irrisória que em vão se tentaria compor como unitária, transparente, incluída em si mesma.

E este é o maior poeta dentre os que vivem aqui. E é, além disso, uma Figura. Benigno, afável, generoso. Estar com ele acalma. Pode se visitado numa vila interior adentro. Igual a si mesmo, alto e ligeiramente inclinado, como que para favorecer a visita, mais educado, porém com simplicidade, do que costumam ser os poetas, que em geral são rabugentos, cheios de si e distantes dos outros, ansiosos, arbitrários. Que alívio! Não fala mal de ninguém, e não porque desconheça o Mal. Seu livro trata dos desarranjos que o pecado original produz cotidianamente. Pois seu tema central é o sacro. Corrijo. Sua terrível ausência.

"borroso en su designio
borrándose al borde de la página"
"en señal de infinito amor a Dios".


Texto de Armando Uribe Arce (1933).

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Obras de Juan Luis Martínez (1942-1993).