É difícil falar de
uma figura emblemática, uma figura que nos sirva de símbolo ou de ponte entre o
século XX e o século XXI. Sobretudo na América Latina, onde, por um lado, foram
abundantes as figuras emblemáticas trágicas e as figuras emblemáticas caricaturais,
os pais da pátria tanto de direita como de esquerda que afundaram o continente
em algo que poderia ser uma mescla de pântano de areias movediças e de Las
Vegas. Mas me ocorre agora que essa figura poderia ser Rodrigo Lira e que se
Rodrigo Lira lesse isso ele começaria a rir. Sua vida foi, sem dúvidas, um
alarde de discrição, só que a discrição, em Rodrigo, não possuía as conotações
que costuma ter no resto do planeta ou ao menos na América Latina, onde é
sinônimo de silêncio e também de castração. A discrição, para Rodrigo Lira, era
uma mescla perigosa de elegância e tristeza. Uma elegância e uma tristeza que
podiam ser extremas, que costumavam ser extremas, e que em público (e suponho
que também na privacidade, o que neste caso quer dizer: na solidão irrestrita) aparecia
armada dos pés à cabeça com o humor mais cáustico, como se Rodrigo fosse um
cavaleiro medieval perdido num sonho que logo se transformou em pesadelo. Era
poeta, claro. Às vezes é tentador crer que foi o último poeta do Chile, um dos
últimos poetas da América Latina. Nasceu em 1949, o que significa que tinha
vinte e quatro anos quando ocorreu o golpe militar. Pelos seus textos, o leitor
tem às vezes a impressão de que seu mundo, a geografia pela qual se movia,
estava circunscrito a algumas faculdades universitárias e a umas poucas
bibliotecas santiaguinas, cidade da qual era originário. Muitos de seus poemas
são comentários marginais à obra de alguns grandes poetas chilenos, os quais
ele frequentou e dos quais ele esgotou a paciência: à primeira vista parecem
brincadeiras, leituras frívolas, insultos proferidos por um tipo relativamente
jovem, que não quer crescer, que não quer entrar no mundo adulto. Por trás das
invectivas, por trás do riso que provoca no poema o carnaval imóvel da literatura,
é possível encontrar outras coisas, entre elas o horror e um olhar profético
que anuncia o fim da ditadura mas não o fim da estupidez, o fim da presença
militar mas não o fim das areias movediças e do silêncio que a presença militar
instalou, tudo faz pensar que para sempre ou que por um tempo tão prolongado
que é, para efeitos de vida humana, semelhante à eternidade, na vida civil
chilena. Profético, visionário, são outras as coisas, no entanto, que
interessam de verdade a Rodrigo Lira. Interessam-lhe algumas mulheres que
indefectivelmente o abandonam ou nem sequer falam com ele. Interessa-lhe seu
cabelo, que vai perdendo, e à medida que a calvície cresce suas costeletas,
antes diminutas, vão crescendo também, até formarem costeletas volumosas, costeletas
de prócer da Independência. Interessam-lhe as camisas floridas. Interessam-lhe
alguns livros que são como buracos negros, ou que simulam sê-lo. Interessa-lhe
a sociabilidade: podemos imaginar um tipo simpático, atento, culto, sensível,
que é um bom filho e um bom amigo, um jovem sempre disposto a ajudar, ainda que
no fundo esse jovem seja uma bomba relógio, esse jovem escute com outro ouvido, esse jovem nos ajude com outro tipo de solidariedade.
Interessa-lhe a fala popular, o argot, o slang chileno que é nossa pobreza, mas
que também é uma das poucas riquezas que nos restam (o argot, o sexo, o
descomedimento automático), ainda que por trás do seu argot se esconda, como um
terrorista encurralado, o panorama final daquilo que os donos da pátria chamam
de pátria: um território antes tomado da morte e que agora a morte reconquista
com lentos passos de gigante. E escreve e às vezes, raramente, publica, mas lê
seus poemas, e nisto Rodrigo Lira é similar a tantos poetas latino-americanos
que nas décadas de setenta e oitenta vagam e leem seus poemas, só que Rodrigo
Lira, diferentemente da maioria dos seus contemporâneos, não é um habitante
involuntário de um sonho incompreensível, mas um habitante voluntário, alguém
que mantém os olhos abertos em meio ao pesadelo. Sua discrição, no entanto,
essa discrição que faz com que ele seja um pássaro raro, leva-o também a
suavizar na medida do possível a alteridade que as boas consciências tentam
fazer passar pela normalidade. Gosta de passear, gosta de ler seus poemas em
público, procura se vestir bem, ao menos procura parecer asseado na medida do
possível. Em 1981 decide se suicidar. Para quebrar a seriedade do assunto, em
sua missiva final explica que se mata para protestar contra o recente aumento de
preço do pão. Ou do açúcar. Não me lembro. Escrevo essa nota sem livros de
consulta. Enrique Lihn é um dos poucos que escreveu algo sobre Rodrigo Lira,
quando este já estava morto, e não tenho em mãos o texto de Lihn. Creio
recordar que se meteu em uma banheira cheia de água quente e que cortou as
veias. Essa sempre me pareceu uma forma muito valente e reflexiva de morrer. A
morte não chega de súbito, mas lentamente, o suicida tem muito tempo para
pensar, para recordar os bons e os maus momentos, para se despedir mentalmente dos
seres queridos ou odiados, para recitar de memória algum verso, para chorar. No
caso de Rodrigo Lira, não estranharia que também tivesse tido tempo para rir. O
melhor da América Latina são nossos suicidas, voluntários ou não. Temos os
piores políticos do mundo, os piores capitalistas do mundo, os piores
escritores do mundo. Na Europa somos conhecidos por nossas queixas e por nossas
lágrimas de crocodilo. A América Latina é o que há de mais parecido com a
colônia penal de Kafka. Tratamos de enganar alguns europeus cândidos e alguns
europeus ignorantes com obras péssimas, onde apelamos à sua boa vontade, ao
politicamente correto, às histórias do bom selvagem, ao exotismo. Nossos
universitários e intelectuais querem apenas dar aulas em alguma universidade perdida
do Meio Oeste norte-americano, assim como antes a meta era viajar e viver à
custa do mecenato neo-stalinista, o que para nós constituía um êxito sem
precedentes. Somos especialistas em conseguir bolsas, bolsas que às vezes nos
concedem mais por pena do que por merecimentos. Nosso discurso sobre a riqueza
é o que há de mais parecido com um livro barato de autoajuda. Nosso discurso
sobre a pobreza é um discurso imaginário onde só ressoam as vozes de loucos que
falam de ressentimento e frustração. Odiamos os argentinos porque os argentinos
são aquilo que de mais parecido aos europeus temos em nossos lares. Os
argentinos nos odeiam porque somos o espelho onde eles se veem como o que são,
quer dizer, como americanos. Somos racistas no sentido mais puro: o que quer
dizer que somos racistas porque estamos mortos de medo. Mas temos suicidas
exemplares. Penso em Violeta Parra, que compôs algumas das melhores canções de
nosso continente e que brigou com todos e com tudo e disparou uma bala em si
mesma junto à tenda onde toda noite cantava e uivava. Penso em Alfonsina
Storni, a mulher mais talentosa da Argentina, que se afogou no Rio da Prata.
Penso em Jorge Cuesta, escritor mexicano e homossexual, que antes de meter a
cabeça num saco, emasculou-se e cravou seus testículos na porta do seu
dormitório, como um último presente não correspondido. Estes suicidas
exemplares e seus irmãos gêmeos, os que permanecem sob a tormenta (entre outras
coisas não porque gostem de permanecer ali mas porque não têm outro lugar para
onde ir), fazem pensar que nem tudo está perdido, como a onda de neoliberalismo
e o novo renascer clerical pretendem elevar a categoria de dogma. Somos filhos
da Ilustração, dizia Rodrigo Lira enquanto passeava por uma Santiago que mais
do que qualquer outra coisa parecia um cemitério de outro planeta. Quer dizer,
somos seres humanos razoáveis (pobres, mas razoáveis), não enteléquias saídas
de um manual de realismo mágico, não postais para consumo externo e para abjeto
disfarce interno. Quer dizer: somos seres que podem optar em um momento
histórico pela liberdade, e também, ainda que isso resulte em paradoxo, pela
vida. Aos inumeráveis assassinados pela repressão, há que se acrescentar os
suicidados pela razão, a favor da razão, que é também o lugar onde vive o
humor. Disso sabia Rodrigo Lira, que como tantos poetas latino-americanos
morreu sem nunca publicar. Em 1984, por uma pequena editora, apareceu um
conjunto de seus poemas intitulado Proyecto
de obras completas. O livro, em 1998, era impossível de ser encontrado em
qualquer livraria. Ninguém, contudo, se deu ao trabalho de reeditá-lo. No Chile
são editados muitos livros, a maioria bem ruins. A elegância de Rodrigo Lira,
seu desdém, tornam-no inalcançável aos editores. Os covardes não editam os
valentes.
Texto de Roberto Bolaño (1953-2003) incluído no livro Entre paréntesis (2004).
