quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Os perdidos




É difícil falar de uma figura emblemática, uma figura que nos sirva de símbolo ou de ponte entre o século XX e o século XXI. Sobretudo na América Latina, onde, por um lado, foram abundantes as figuras emblemáticas trágicas e as figuras emblemáticas caricaturais, os pais da pátria tanto de direita como de esquerda que afundaram o continente em algo que poderia ser uma mescla de pântano de areias movediças e de Las Vegas. Mas me ocorre agora que essa figura poderia ser Rodrigo Lira e que se Rodrigo Lira lesse isso ele começaria a rir. Sua vida foi, sem dúvidas, um alarde de discrição, só que a discrição, em Rodrigo, não possuía as conotações que costuma ter no resto do planeta ou ao menos na América Latina, onde é sinônimo de silêncio e também de castração. A discrição, para Rodrigo Lira, era uma mescla perigosa de elegância e tristeza. Uma elegância e uma tristeza que podiam ser extremas, que costumavam ser extremas, e que em público (e suponho que também na privacidade, o que neste caso quer dizer: na solidão irrestrita) aparecia armada dos pés à cabeça com o humor mais cáustico, como se Rodrigo fosse um cavaleiro medieval perdido num sonho que logo se transformou em pesadelo. Era poeta, claro. Às vezes é tentador crer que foi o último poeta do Chile, um dos últimos poetas da América Latina. Nasceu em 1949, o que significa que tinha vinte e quatro anos quando ocorreu o golpe militar. Pelos seus textos, o leitor tem às vezes a impressão de que seu mundo, a geografia pela qual se movia, estava circunscrito a algumas faculdades universitárias e a umas poucas bibliotecas santiaguinas, cidade da qual era originário. Muitos de seus poemas são comentários marginais à obra de alguns grandes poetas chilenos, os quais ele frequentou e dos quais ele esgotou a paciência: à primeira vista parecem brincadeiras, leituras frívolas, insultos proferidos por um tipo relativamente jovem, que não quer crescer, que não quer entrar no mundo adulto. Por trás das invectivas, por trás do riso que provoca no poema o carnaval imóvel da literatura, é possível encontrar outras coisas, entre elas o horror e um olhar profético que anuncia o fim da ditadura mas não o fim da estupidez, o fim da presença militar mas não o fim das areias movediças e do silêncio que a presença militar instalou, tudo faz pensar que para sempre ou que por um tempo tão prolongado que é, para efeitos de vida humana, semelhante à eternidade, na vida civil chilena. Profético, visionário, são outras as coisas, no entanto, que interessam de verdade a Rodrigo Lira. Interessam-lhe algumas mulheres que indefectivelmente o abandonam ou nem sequer falam com ele. Interessa-lhe seu cabelo, que vai perdendo, e à medida que a calvície cresce suas costeletas, antes diminutas, vão crescendo também, até formarem costeletas volumosas, costeletas de prócer da Independência. Interessam-lhe as camisas floridas. Interessam-lhe alguns livros que são como buracos negros, ou que simulam sê-lo. Interessa-lhe a sociabilidade: podemos imaginar um tipo simpático, atento, culto, sensível, que é um bom filho e um bom amigo, um jovem sempre disposto a ajudar, ainda que no fundo esse jovem seja uma bomba relógio, esse jovem escute com outro ouvido, esse jovem nos ajude com outro tipo de solidariedade. Interessa-lhe a fala popular, o argot, o slang chileno que é nossa pobreza, mas que também é uma das poucas riquezas que nos restam (o argot, o sexo, o descomedimento automático), ainda que por trás do seu argot se esconda, como um terrorista encurralado, o panorama final daquilo que os donos da pátria chamam de pátria: um território antes tomado da morte e que agora a morte reconquista com lentos passos de gigante. E escreve e às vezes, raramente, publica, mas lê seus poemas, e nisto Rodrigo Lira é similar a tantos poetas latino-americanos que nas décadas de setenta e oitenta vagam e leem seus poemas, só que Rodrigo Lira, diferentemente da maioria dos seus contemporâneos, não é um habitante involuntário de um sonho incompreensível, mas um habitante voluntário, alguém que mantém os olhos abertos em meio ao pesadelo. Sua discrição, no entanto, essa discrição que faz com que ele seja um pássaro raro, leva-o também a suavizar na medida do possível a alteridade que as boas consciências tentam fazer passar pela normalidade. Gosta de passear, gosta de ler seus poemas em público, procura se vestir bem, ao menos procura parecer asseado na medida do possível. Em 1981 decide se suicidar. Para quebrar a seriedade do assunto, em sua missiva final explica que se mata para protestar contra o recente aumento de preço do pão. Ou do açúcar. Não me lembro. Escrevo essa nota sem livros de consulta. Enrique Lihn é um dos poucos que escreveu algo sobre Rodrigo Lira, quando este já estava morto, e não tenho em mãos o texto de Lihn. Creio recordar que se meteu em uma banheira cheia de água quente e que cortou as veias. Essa sempre me pareceu uma forma muito valente e reflexiva de morrer. A morte não chega de súbito, mas lentamente, o suicida tem muito tempo para pensar, para recordar os bons e os maus momentos, para se despedir mentalmente dos seres queridos ou odiados, para recitar de memória algum verso, para chorar. No caso de Rodrigo Lira, não estranharia que também tivesse tido tempo para rir. O melhor da América Latina são nossos suicidas, voluntários ou não. Temos os piores políticos do mundo, os piores capitalistas do mundo, os piores escritores do mundo. Na Europa somos conhecidos por nossas queixas e por nossas lágrimas de crocodilo. A América Latina é o que há de mais parecido com a colônia penal de Kafka. Tratamos de enganar alguns europeus cândidos e alguns europeus ignorantes com obras péssimas, onde apelamos à sua boa vontade, ao politicamente correto, às histórias do bom selvagem, ao exotismo. Nossos universitários e intelectuais querem apenas dar aulas em alguma universidade perdida do Meio Oeste norte-americano, assim como antes a meta era viajar e viver à custa do mecenato neo-stalinista, o que para nós constituía um êxito sem precedentes. Somos especialistas em conseguir bolsas, bolsas que às vezes nos concedem mais por pena do que por merecimentos. Nosso discurso sobre a riqueza é o que há de mais parecido com um livro barato de autoajuda. Nosso discurso sobre a pobreza é um discurso imaginário onde só ressoam as vozes de loucos que falam de ressentimento e frustração. Odiamos os argentinos porque os argentinos são aquilo que de mais parecido aos europeus temos em nossos lares. Os argentinos nos odeiam porque somos o espelho onde eles se veem como o que são, quer dizer, como americanos. Somos racistas no sentido mais puro: o que quer dizer que somos racistas porque estamos mortos de medo. Mas temos suicidas exemplares. Penso em Violeta Parra, que compôs algumas das melhores canções de nosso continente e que brigou com todos e com tudo e disparou uma bala em si mesma junto à tenda onde toda noite cantava e uivava. Penso em Alfonsina Storni, a mulher mais talentosa da Argentina, que se afogou no Rio da Prata. Penso em Jorge Cuesta, escritor mexicano e homossexual, que antes de meter a cabeça num saco, emasculou-se e cravou seus testículos na porta do seu dormitório, como um último presente não correspondido. Estes suicidas exemplares e seus irmãos gêmeos, os que permanecem sob a tormenta (entre outras coisas não porque gostem de permanecer ali mas porque não têm outro lugar para onde ir), fazem pensar que nem tudo está perdido, como a onda de neoliberalismo e o novo renascer clerical pretendem elevar a categoria de dogma. Somos filhos da Ilustração, dizia Rodrigo Lira enquanto passeava por uma Santiago que mais do que qualquer outra coisa parecia um cemitério de outro planeta. Quer dizer, somos seres humanos razoáveis (pobres, mas razoáveis), não enteléquias saídas de um manual de realismo mágico, não postais para consumo externo e para abjeto disfarce interno. Quer dizer: somos seres que podem optar em um momento histórico pela liberdade, e também, ainda que isso resulte em paradoxo, pela vida. Aos inumeráveis assassinados pela repressão, há que se acrescentar os suicidados pela razão, a favor da razão, que é também o lugar onde vive o humor. Disso sabia Rodrigo Lira, que como tantos poetas latino-americanos morreu sem nunca publicar. Em 1984, por uma pequena editora, apareceu um conjunto de seus poemas intitulado Proyecto de obras completas. O livro, em 1998, era impossível de ser encontrado em qualquer livraria. Ninguém, contudo, se deu ao trabalho de reeditá-lo. No Chile são editados muitos livros, a maioria bem ruins. A elegância de Rodrigo Lira, seu desdém, tornam-no inalcançável aos editores. Os covardes não editam os valentes.


Texto de Roberto Bolaño (1953-2003) incluído no livro Entre paréntesis (2004).