sábado, 28 de dezembro de 2013

Eu não sou...





        Eu não sou o vento nem a praia
nem a onda que berra
nem a mão que implora.

         Eu não sou nada:
nada além desta carteira de identidade
que até o mais ingênuo policial põe sob suspeita.

         Não o digo por mim,
mas pelo retrato que de mim fizeram.


Poema de Armando Rubio Huidobro (1955-1980). Do livro póstumo Ciudadano (1983).



Com esse post, o Otraversão encerra suas atividades neste 2013 e, para 2014, a promessa é partir pra página impressa (seja livro, seja plaquete, seja revista) e circular livremente por vossas mãos, olhos e peitos.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Unamo-nos




Unamo-nos pelos que ficaram para trás, pelos que não tiveram
pernas para correr, pelos que morreram cantando pela vida,
unamo-nos pela mãe que perdeu todos os filhos
e pelo pai que só teve tempo de recostar e morrer,
unamo-nos pelo amigo que não nos pôde abrir a porta porque
       estava acorrentado,
unamo-nos pela infância que não tivemos porque fomos jogados na
       rua,
unamo-nos pelo amor que nunca sorriu,
unamo-nos pelo sol que nunca esquentou,
unamo-nos pela casa que foi sempre tão fria,
unamo-nos pelo pão que foi sempre tão duro, unamo-nos
pela sucessão indestrutível dos anos,
pela exatidão de primaveras e trigos, unamo-nos
pelo encadeamento de águas e terras!


Poema de Efraín Barquero (1931). Do livro La piedra del pueblo (1954).




segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A psicologia




Como você representa a falta de peixe?


















Como você faz para surpreender os personagens indesejáveis que deslizam entre seus pensamentos? Enumere diversos procedimentos.


















Ao fim do retorno às suas recordações, coloque uma escada contra a parede, mas não comece a subir sem ter se provido de uma corda, da qual um dos extremos será solidamente fixado ao chão e o outro enrolado ao redor do seu punho esquerdo. Por não terem tomado esta precaução, muitas pessoas jamais retornaram.


Poema de Juan Luis Martínez (1942-1993). Do livro La nueva novela (1977)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Autocríticas, um



Está mal feita
Esta Mulher está mal feita
                  diz a letra
                  de uma cumbia
                  colombiana.

ESPANTOSA SENSAÇÃO
quando notas e é evidente
que a poesia que há pouco escreveste
também está mal feita
a Poesia está
                   mal
                       feita.


*


Está mal feita
Esta Mulher está mal feita
                  diz a letra
                  de um pagodão
                  baiano.

ESPANTOSA SENSAÇÃO
quando notas e é evidente
que a poesia que há pouco escreveste
também está mal feita
a Poesia está
                   mal
                       feita.



Poema de Rodrigo Lira (1949-1981) em duas versões.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Espejismos y realidades de la poesía chilena actual (excerto)




(...)

Toda poesia é uma forma de comunicação, de fraternidade, um ato de amor. Apenas os obcecados pela incomunicabilidade e pela obscuridade podem pensar o contrário. Com razão Gonzalo Rojas disse: "... se minha palavra não tivesse sido escutada: ah, então não teria sido igual! Assim vou. Abrindo o mundo, como posso, com minha palavra, que é apenas parte da palavra dos poetas". É claro que existe uma poesia hermética, por necessidade profunda (por ora acessível apenas a uma minoria), como a de Humberto Díaz Casanueva, por exemplo. Mas junto a estes qualificados e necessários poetas existem os pseudopoetas que se amparam na facilidade de expressar em linhas mal cortadas a dispersão mental, a a-lógica, ou que despejam suas deliquescências adolescentes, seu vanguardismo anacrônico, os que elevam o lugar comum e o discurso de jornal à categoria do espírito, ou os que querendo ser mais Parra do que Parra incorrem em uma antipoesia que costuma não provocar riso, mas lástima. Todos eles, e não são poucos, criam uma confusão que prejudica notoriamente a difusão e o conhecimento da poesia como ela é.

Em que pese toda a grande fama da poesia chilena, e o lugar egrégio que ela ocupa segundo todos dizem reconhecer, a grande maioria dos poetas se bate com o problema de não ter editor, não poder dar a conhecer sua mensagem. Os editores não são filantropos, é claro, e afirmam que poesia não vende, ainda que façam muito pouco para difundi-la. De vez em quando se interessam pelas antologias, pois estas vendem, mas, para a desgraça dos poetas, na maior parte das vezes não são senão "Antojolías"[1] ou improvisações feitas por poetas ou críticos de boa ou má vontade (fora as antologias de Molina e Araya, Selva Lírica, a de Anguita e Teitelboim e, com todas as suas distorções, a de Jorge Elliott, seria difícil encontrar outras criteriosas). No ano passado apenas um livro de um poeta das últimas gerações foi publicado por uma editora comercial: El Viento de los Reinos, de Efraín Barquero. La fuga de Sebasatián, de Jaime Gómez Rogers, apareceu graças a ter vencido o Premio Alerce de la Sociedade de Escritores, que está sob ameaça de ser extinto. Mesmo Gonzalo Rojas teve de financiar grande parte do seu Contra la muerte, que no entanto apareceu em Cuba, e a viúva de Rosamel del Valle, Therése Dulac, financiou a edição póstuma de Adiós enigma tomasol. Assim o poeta, sobretudo o poeta jovem, deve publicar-se arriscadamente, por conta própria, e ao fim, seu livro, sem contar com distribuição, está condenado a ser enviado aos amigos, a não ser que o deixe dormindo num sótão. Situações todas elas deprimentes que contribuem para a separação entre poeta e público. E apenas um tolo pedante ou um pedante tolo pode consolar-se atualmente da pouca difusão dos seus livros dizendo que acontecia o mesmo com Baudelaire. Já não é possível se conformar com a ideia da poesia como um patrimônio de uns poucos e sábios iniciados. Se fosse assim, ela seria um luxo, e não uma necessidade, e o poeta, um ser antediluviano a ponto de extinguir-se, duas coisas fora de toda realidade. Todo criador verdadeiro sabe - e o experimentou - que a poesia é uma linguagem de fraternidade, um meio de alterar a vida individual e coletiva, um sistema de correlação e conhecimento entre homem e natureza.



[1] Trocadilho com as palavras antología e antojo – que significa qualquer coisa como um julgamento apressado, feito sem uma verdadeira análise.



Excerto de um texto de Jorge Teillier (1935-1996).

domingo, 13 de outubro de 2013

Cartas do poeta que dorme numa cadeira (excerto)




XV

Esta é a última vez que repito:
Os vermes são deuses
As borboletas são flores em movimento perpétuo
Dentes cariados
                         dentes quebradiços
Eu sou do tempo do cinema mudo.

Fornicar é um ato literário.


XV das Cartas del poeta que duerme en una silla, de Nicanor Parra (1914). De Obra Gruesa (1969).

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Distância




      Indiferença do mundo
e das coisas
diante de mim;
indiferença minha
diante do mundo e das coisas:
mútua correspondência.

      Transito
e caio
de pé.

      A mesma porta
entreaberta
num deserto
murcho sob o sol.

      A gaivota extraviada
numa miragem marinha,
abre as asas,
hirta,
sobre o vazio das coisas.


Poema de Armando Rubio Huidobro (1955-1980). Do livro póstumo Ciudadano (1983).

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

El hueso de la memoria (excertos)




Eu
COM FORÇA ME CRAVO
e na terra
não
me
moves.

NÃO
ME
MOVES.


*


Cobertos de noite
caminhamos.


*


Impávida
BRILHA A MÁSCARA.


*


FERIDAS, NÃO HÁ.


*


Sofro a geada.
Devoro tua sombra
espanto tua sombra
teu corpo
teu membro de ferro.



Excertos da primeira parte do livro El hueso de la memoria (1985), intitulada "La miseria del ojo", de Veronica Zondek (1953).

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

48




O rio inverte o curso de sua corrente.
A água das cascatas sobe.
As pessoas passam a caminhar retrocedendo.
Os cavalos caminham para trás.
Os militares desfazem o desfile.
As balas saem das carnes.
As balas entram nos canhões.
Os oficiais guardam suas pistolas.
A corrente é devolvida aos cabos.
A corrente penetra pelas tomadas.
Os torturados deixam de se debater.
Os torturados fecham suas bocas.
Os campos de concentração se esvaziam.
Aparecem os desaparecidos.
Os mortos saem de suas tumbas.
Os aviões voam para trás.
Os "rockets" sobem de volta aos aviões.
Allende dispara.
As chamas se apagam.
Tira o capacete.
La Moneda se reconstitui íntegro.
Seu crânio se recompõe.
Vai a uma sacada.
Allende retrocede até Tomás Moro.
Os detidos saem de costas dos estádios.
11 de Setembro.
Regressam aviões com refugiados.
O Chile é um país democrático.
As forças armadas respeitam a constituição.
Os militares voltam aos seus quartéis.
Neruda renasce.
Volta de ambulância para Isla Negra.
Sente dor na próstata. Escreve.
Victor Jara toca o violão. Canta.
Os discursos entram nas bocas.
O tirano abraça Prat.
Desaparece. Prat revive.
Os afastados são recontratados.
Os trabalhadores desfilam cantando.
Venceremos!


Poema de Gonzalo Millán (1946-2006), do livro La ciudad (1979). Abaixo, vídeo com o poeta lendo seus versos.



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Os perdidos




É difícil falar de uma figura emblemática, uma figura que nos sirva de símbolo ou de ponte entre o século XX e o século XXI. Sobretudo na América Latina, onde, por um lado, foram abundantes as figuras emblemáticas trágicas e as figuras emblemáticas caricaturais, os pais da pátria tanto de direita como de esquerda que afundaram o continente em algo que poderia ser uma mescla de pântano de areias movediças e de Las Vegas. Mas me ocorre agora que essa figura poderia ser Rodrigo Lira e que se Rodrigo Lira lesse isso ele começaria a rir. Sua vida foi, sem dúvidas, um alarde de discrição, só que a discrição, em Rodrigo, não possuía as conotações que costuma ter no resto do planeta ou ao menos na América Latina, onde é sinônimo de silêncio e também de castração. A discrição, para Rodrigo Lira, era uma mescla perigosa de elegância e tristeza. Uma elegância e uma tristeza que podiam ser extremas, que costumavam ser extremas, e que em público (e suponho que também na privacidade, o que neste caso quer dizer: na solidão irrestrita) aparecia armada dos pés à cabeça com o humor mais cáustico, como se Rodrigo fosse um cavaleiro medieval perdido num sonho que logo se transformou em pesadelo. Era poeta, claro. Às vezes é tentador crer que foi o último poeta do Chile, um dos últimos poetas da América Latina. Nasceu em 1949, o que significa que tinha vinte e quatro anos quando ocorreu o golpe militar. Pelos seus textos, o leitor tem às vezes a impressão de que seu mundo, a geografia pela qual se movia, estava circunscrito a algumas faculdades universitárias e a umas poucas bibliotecas santiaguinas, cidade da qual era originário. Muitos de seus poemas são comentários marginais à obra de alguns grandes poetas chilenos, os quais ele frequentou e dos quais ele esgotou a paciência: à primeira vista parecem brincadeiras, leituras frívolas, insultos proferidos por um tipo relativamente jovem, que não quer crescer, que não quer entrar no mundo adulto. Por trás das invectivas, por trás do riso que provoca no poema o carnaval imóvel da literatura, é possível encontrar outras coisas, entre elas o horror e um olhar profético que anuncia o fim da ditadura mas não o fim da estupidez, o fim da presença militar mas não o fim das areias movediças e do silêncio que a presença militar instalou, tudo faz pensar que para sempre ou que por um tempo tão prolongado que é, para efeitos de vida humana, semelhante à eternidade, na vida civil chilena. Profético, visionário, são outras as coisas, no entanto, que interessam de verdade a Rodrigo Lira. Interessam-lhe algumas mulheres que indefectivelmente o abandonam ou nem sequer falam com ele. Interessa-lhe seu cabelo, que vai perdendo, e à medida que a calvície cresce suas costeletas, antes diminutas, vão crescendo também, até formarem costeletas volumosas, costeletas de prócer da Independência. Interessam-lhe as camisas floridas. Interessam-lhe alguns livros que são como buracos negros, ou que simulam sê-lo. Interessa-lhe a sociabilidade: podemos imaginar um tipo simpático, atento, culto, sensível, que é um bom filho e um bom amigo, um jovem sempre disposto a ajudar, ainda que no fundo esse jovem seja uma bomba relógio, esse jovem escute com outro ouvido, esse jovem nos ajude com outro tipo de solidariedade. Interessa-lhe a fala popular, o argot, o slang chileno que é nossa pobreza, mas que também é uma das poucas riquezas que nos restam (o argot, o sexo, o descomedimento automático), ainda que por trás do seu argot se esconda, como um terrorista encurralado, o panorama final daquilo que os donos da pátria chamam de pátria: um território antes tomado da morte e que agora a morte reconquista com lentos passos de gigante. E escreve e às vezes, raramente, publica, mas lê seus poemas, e nisto Rodrigo Lira é similar a tantos poetas latino-americanos que nas décadas de setenta e oitenta vagam e leem seus poemas, só que Rodrigo Lira, diferentemente da maioria dos seus contemporâneos, não é um habitante involuntário de um sonho incompreensível, mas um habitante voluntário, alguém que mantém os olhos abertos em meio ao pesadelo. Sua discrição, no entanto, essa discrição que faz com que ele seja um pássaro raro, leva-o também a suavizar na medida do possível a alteridade que as boas consciências tentam fazer passar pela normalidade. Gosta de passear, gosta de ler seus poemas em público, procura se vestir bem, ao menos procura parecer asseado na medida do possível. Em 1981 decide se suicidar. Para quebrar a seriedade do assunto, em sua missiva final explica que se mata para protestar contra o recente aumento de preço do pão. Ou do açúcar. Não me lembro. Escrevo essa nota sem livros de consulta. Enrique Lihn é um dos poucos que escreveu algo sobre Rodrigo Lira, quando este já estava morto, e não tenho em mãos o texto de Lihn. Creio recordar que se meteu em uma banheira cheia de água quente e que cortou as veias. Essa sempre me pareceu uma forma muito valente e reflexiva de morrer. A morte não chega de súbito, mas lentamente, o suicida tem muito tempo para pensar, para recordar os bons e os maus momentos, para se despedir mentalmente dos seres queridos ou odiados, para recitar de memória algum verso, para chorar. No caso de Rodrigo Lira, não estranharia que também tivesse tido tempo para rir. O melhor da América Latina são nossos suicidas, voluntários ou não. Temos os piores políticos do mundo, os piores capitalistas do mundo, os piores escritores do mundo. Na Europa somos conhecidos por nossas queixas e por nossas lágrimas de crocodilo. A América Latina é o que há de mais parecido com a colônia penal de Kafka. Tratamos de enganar alguns europeus cândidos e alguns europeus ignorantes com obras péssimas, onde apelamos à sua boa vontade, ao politicamente correto, às histórias do bom selvagem, ao exotismo. Nossos universitários e intelectuais querem apenas dar aulas em alguma universidade perdida do Meio Oeste norte-americano, assim como antes a meta era viajar e viver à custa do mecenato neo-stalinista, o que para nós constituía um êxito sem precedentes. Somos especialistas em conseguir bolsas, bolsas que às vezes nos concedem mais por pena do que por merecimentos. Nosso discurso sobre a riqueza é o que há de mais parecido com um livro barato de autoajuda. Nosso discurso sobre a pobreza é um discurso imaginário onde só ressoam as vozes de loucos que falam de ressentimento e frustração. Odiamos os argentinos porque os argentinos são aquilo que de mais parecido aos europeus temos em nossos lares. Os argentinos nos odeiam porque somos o espelho onde eles se veem como o que são, quer dizer, como americanos. Somos racistas no sentido mais puro: o que quer dizer que somos racistas porque estamos mortos de medo. Mas temos suicidas exemplares. Penso em Violeta Parra, que compôs algumas das melhores canções de nosso continente e que brigou com todos e com tudo e disparou uma bala em si mesma junto à tenda onde toda noite cantava e uivava. Penso em Alfonsina Storni, a mulher mais talentosa da Argentina, que se afogou no Rio da Prata. Penso em Jorge Cuesta, escritor mexicano e homossexual, que antes de meter a cabeça num saco, emasculou-se e cravou seus testículos na porta do seu dormitório, como um último presente não correspondido. Estes suicidas exemplares e seus irmãos gêmeos, os que permanecem sob a tormenta (entre outras coisas não porque gostem de permanecer ali mas porque não têm outro lugar para onde ir), fazem pensar que nem tudo está perdido, como a onda de neoliberalismo e o novo renascer clerical pretendem elevar a categoria de dogma. Somos filhos da Ilustração, dizia Rodrigo Lira enquanto passeava por uma Santiago que mais do que qualquer outra coisa parecia um cemitério de outro planeta. Quer dizer, somos seres humanos razoáveis (pobres, mas razoáveis), não enteléquias saídas de um manual de realismo mágico, não postais para consumo externo e para abjeto disfarce interno. Quer dizer: somos seres que podem optar em um momento histórico pela liberdade, e também, ainda que isso resulte em paradoxo, pela vida. Aos inumeráveis assassinados pela repressão, há que se acrescentar os suicidados pela razão, a favor da razão, que é também o lugar onde vive o humor. Disso sabia Rodrigo Lira, que como tantos poetas latino-americanos morreu sem nunca publicar. Em 1984, por uma pequena editora, apareceu um conjunto de seus poemas intitulado Proyecto de obras completas. O livro, em 1998, era impossível de ser encontrado em qualquer livraria. Ninguém, contudo, se deu ao trabalho de reeditá-lo. No Chile são editados muitos livros, a maioria bem ruins. A elegância de Rodrigo Lira, seu desdém, tornam-no inalcançável aos editores. Os covardes não editam os valentes.


Texto de Roberto Bolaño (1953-2003) incluído no livro Entre paréntesis (2004).

sábado, 31 de agosto de 2013

Alguns sonhos




Já vão secando os Sonhos
    desta vida
observem-nos lá em cima, alguns
no céu, como brilham!
Abaixo, longínquo, o arco-íris brinca
    com a escuridão
enquanto sobre as rochas canta
    meu coração confundido
Então isto é morrer, o Sonho Azul?
pergunto aos meus irmãos
    da Região Celeste.


*


KIÑEKE PEWMA

Petu amkvy ti mogen ñi Pewma
azkintufimvn wenu, kiñeke Wenu
Mapu mew, ñi wilvfvn
Nag mapu, kamapu mew,
awkantumekey ti relmu zumiñ egu
petu ñi piwke vlkantumekey wente
   kura mu kimvwkvlelay
Feyta anta ti lan, ti
   Kallfv Pewma?
ramtunfiñ ñi pu peñi Kallfv
   mapu mvlelu.


*


ALGUNOS SUEÑOS

Se van secando los Sueños
     de la vida
mírenlos arriba, algunos
en el cielo, cómo brillan
Abajo, lejano, el arcoiris juega
     con la oscuridad
mientras sobre las rocas canta
mi corazón confundido
¿Es este el morir, el Sueño Azul?
pregunto a mis hermanos
     de la Región Celeste.


Poema de Elicura Chihuailaf (1952). Do livro De sueños azules e contrasueños (1995). Autor mapuche e chileno, escreve uma obra sobretudo bilíngue, em mapundungún e castelhano. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Vincent Huidobro




Este é Vincent Huidobro, poeta francês nascido em Santiago do Chile.

Entre os artistas sul-americanos que vivem em Paris, Huidobro encarna uma figura destacada e interessante.

Barbeado, de cabelo curto e olhos iluminados, põe em seus gestos e em seu modo de falar toda a estranha fogosidade e vivacidade do seu pensamento. Conversa com nervosismo e em voz alta e clara.

Estamos em sua sala de trabalho, pequena sala desordenada em que se confundem os livros, as revistas, os discos de vitrola, as caixas de charuto e as esculturas e máscaras negras, com os poemas desenhados de sua celebrada exposição do ano passado.

A vida de Huidobro é tão agitada e dinâmica como suas teorias. Acaba de chegar da Alemanha, onde deu conferências e discutiu com matemáticos, cineastas e filósofos. Esteve na Rússia e já pensa em ir à Suécia e à Noruega...

Suas atividades são múltiplas. Interessado no problema social da Índia, escreve e publica um livro de propaganda e de combate revolucionário: "Finis Britania".

Isto gera a antipatia dos ingleses, um abraço postal de Mahatma Ghandi... e uma rápida desventura: entre a noite e a manhã, desaparece. Sua família e seus amigos pensam numa desgraça. Três dias depois está de novo em sua casa. Foi sequestrado. Regressa de sua prisão como de uma viagem ao campo: sorridente, um pouco despenteado...

Todos os jornais de Paris reproduzem seu retrato. Entrevistam-no. Comove por algumas horas a atenção pública.

- Sei que muitos riram do atentado de que fui vítima, diz. Os jornalistas trataram o assunto como piada. E, acredite, foi apenas despeito. Quando voltei para esta casa, uma centena de repórteres me esperava. De todos os jornais do mundo: ingleses, americanos, franceses, russos, suecos, italianos... Todos queriam saber. Todos queriam ser os primeiros a noticiar a solução do caso. E eu expulsei todos eles de casa sem lhes dizer nada.

Alguns amigos, entre eles Picasso, Cocteau, Lipchitz, me disseram que não era certo fazer isso com os jornalistas. Que bobagem! Eu tenho muito que fazer e além disso não sou um fantoche. Você quer saber quem foram os autores do sequestro? Seus nomes já estão em poder da polícia. Foram dois scouts irlandeses... Mas isso é coisa passada. Bem passada. Agora estou ocupado com meu filme. Você sabia que eu estava preparando um filme? Não sabem disso no Chile? Será algo novo, muito novo em Paris. Mosjowskine é um ator de talento e dirigido por mim fará uma coisa boa. Eu tenho condições de ser o melhor diretor cinematográfico. O melhor ator também. Gostaria de interpretar um Napoleão. Você notou minha grande semelhança com Napoleão? (Aqui o poeta se levanta e põe uma mecha de cabelo sobre a testa, cruza um braço sobre o peito, leva o outro às costas e seus olhos fitam um horizonte distante e imaginário). A pose dura um segundo. Em seguida continua:

- Meu filme se chamará "Cagliostro". Além disso, vou regularizar a aparição de minha revista "Creation". E este ano devo publicar pelo menos quatro livros. Há um de estética e outro de crítica. De crítica acerba. É necessário fustigar os imbecis com um chicote para mantê-los distantes, como se faz com os cães. Para os imbecis minha palavra é um chicote. Este livro chamará a atenção da América profundamente. Vai se chamar "Tierra Natal", e, claro, versará sobre assuntos da vida chilena. Os outros dois são de poesia.

Retornar ao Chile? Quem sabe! Paris, só Paris, é a cidade em que se pode viver dignamente. Eu conheço todos os países da terra, fui a todos os lugares, e, cada vez que me distancio de Paris, me distancio com dor. E cada vez que retorno meu coração treme, estremece de alegria.

Ir ao Chile... Sim. Desejo ir, fazer uma viagem. Mas esta viagem não está próxima.

Lá me acusam de antipatriota, porque apareço nas Antologias francesas como poeta francês. Eu tenho culpa? Além disso, ninguém percebe, ninguém se lembra de que diante de qualquer belo monumento, diante de qualquer grande obra da humanidade, eu nunca deixo de pensar: Não fizemos nada no Chile! Não temos nada: nem arquitetura, nem música, nem poesia. E este é o verdadeiro patriotismo: condoer-se dos defeitos, chorar sobre os vazios e desejar e lutar para extinguir estes defeitos e preencher estes vazios.

Huidobro fala com uma loquacidade admirável. Salta de um tema para outro com agilidade e destreza. Às vezes se enrola, às vezes tropeça, mas um ligeiro movimento de pés, uma sábia flexão... e já o temos de novo disposto a outro salto.

- Eu descobri, eu criei uma Arte nova.

Mostrando-me uma escultura de Lipchitz, diz:

- Veja que maravilha...

É uma escultura cubista. Um racimo de arestas e de planos que se cortam e se enlaçam. Eu observo, compreendo como é feito, compreendo que é uma coisa que está fora do cotidiano, uma coisa "criada", enfim, mas confesso que esta criação não me produz nada além de uma impressão de aridez e frieza.

Huidobro se exalta.

- Como você não sente isso? É encantador! Que nome leva? Não sei. Não precisa de nome. É uma escultura, como uma fruta é uma fruta. Tem sabor e qualidade e vida própria. Observe bem.

Há uma linha inapagável, um abismo intransponível entre a Arte e a Realidade. O artista não deve nos dar o habitual. Deve criar. Até agora se fez arte "em torno de". Há que se rechaçar o poético, o pictórico ou o musical, e criar a poesia, a pintura e a música. O poema, como toda obra de arte, é um invento. Seus elementos estão dispersos no espaço. Encontrando-os e unindo-os no tempo, cria-se o poema. E o poema, assim, terá vida própria como a árvore e o pássaro.

É preciso expulsar o anedotário, evitar o relato. Só o absurdo, o não habitual, está dentro da arte. Os fatos, as ações, estão dentro da vida real.

A poesia pura, segundo Huidobro, começa com o criacionismo. Até agora só se fez relato poético. O culto da lembrança deu às coisas uma beleza falsa. Platão já dizia isso muito claramente: "As coisas são belas apenas por causa da lembrança". O poeta, o artista, deve tomar as coisas, e transformá-las, criar a beleza, inventar a beleza.

Assim o homem primitivo tomou a pedra, tomou a madeira, transformou-as e inventou, "criou" a roda, a flecha, o copo. Como avaliar a qualidade de uma obra criada? Como saber se ela é boa ou má se não existe nenhum ponto de controle?

Pergunta absurda. Uma obra de arte será boa quando conte com os elementos indispensáveis da obra de arte; quando dentro dela não haja elementos estranhos.

Uma laranja é boa quando não tem sabor de pera ou de maçã... ou de uma laranja ruim. Como se faz, como se cria um poema? Isto é impertinente e ridículo. Uma mariposa chama nossa atenção e nos enche de admiração. Não ocorre a ninguém perguntar como se faz uma mariposa.

E o poema ou qualquer obra de arte criada tem tanta vida e pode ter tanta beleza como um nenúfar ou um rouxinol.

E agora vamos a Montparnasse, iremos ao "Jockey". Estão lá uns negros da África que tocam muito bem e certas mulheres douradas cuja dança comove...

Paris, 1924


Texto de Alberto Rojas Jiménez (1900-1934), poeta e jornalista nascido em Valparaíso, e um dos responsáveis pelo “Primer Manifiesto Agú”, uma das primeiras manifestações da vanguarda chilena, em 1921. O texto foi retirado de Chilenos en París, livro de relatos e crônicas.




A fotografia de Huidobro que abre o post foi tirada por Hans Arp.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

+ Parra





Passem no Randomia que, além de uma série de traduções que fiz de poemas, fragmentos, declarações e porradas vindas de Nicanor Parra, tem Tzara, Aguilar, Tazio Zambi + cavaloDada.

sábado, 24 de agosto de 2013

Poeta livre





Cuba sí.
Yanquis también.

NICANOR PARRA



Chile?
Depende...


Poema de Roque Dalton (1935-1975). A primeira fuga do Otraversão do território chileno vai até El Salvador, mas segue em diálogo com o país andino e com a postura política de Nicanor Parra, aqui referida com alguma ironia por Dalton, que põe o poeta chileno em epígrafe.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Artefacto



A ESQUERDA E A DIREITA UNIDAS
JAMAIS SERÃO VENCIDAS


Artefacto de Nicanor Parra (1914).

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Nicanor Parra: Poesia Política




Um preconceito originado nos tempos da "poesia pura", e exacerbado nesta nossa década de recesso político, afirma que os problemas da polis poderiam sujar a pureza das essências líricas, gerando uma poesia panfletária e ideológica de qualidade inferior. Essa ideia não resiste à menor confrontação com a história da literatura. Os grandes poetas gregos, latinos, medievais, modernos e contemporâneos fizeram "poesia política" numa medida considerável. Poderíamos citar, em nosso século, uma grande variedade de registros: o tom profético de Trakl, George e Edith Sitwel; a maneira mista - a perspectiva intimista e pessoal de Kavafis, Machado, Eliot, Quasimodo e Pasternak; o messianismo de Blok, a fantasia irônica de Maiakovski, a militância aberta e programática de Brecht, Aragon, Alberti e, especialmente, do próprio Neruda. É verdade que este último cai, muitas vezes, no panfletário, no pedagógico, na explicação e na apologia, tornando evidente a especial dificuldade do gênero; mas, sem dúvida, é autor de certa poesia política de grande valor. Também o é Nicanor Parra, ao seu próprio modo, que, em contraste com a seriedade nerudiana - um conteúdo revolucionário sob uma linguagem "tradicional" -, consegue a subversão mais íntegra da linguagem mesma, operando através desse elemento político por excelência que é a sua ironia.

Esta antologia de sua Poesía política (Editorial Bruguera), com brioso prólogo de Enrique Lafourcade, se constrói desde 1950 até hoje. Contém excelentes poemas que não são políticos - como "Defensa de Violeta Parra" -, outros que o são em sentido amplo - batalhas campais de robôs e energúmenos, fantasmas ecológicos, crítica da vida nacional -, e muitos que são políticos em sentido estrito e direto. Aqueles que pedem a esta poesia que "tome partido" se surpreendem com a ubiquidade ideológica do autor, que torna possível ler seus poemas - escritos, em sua maioria, durante os quatro últimos regimes do país - de forma quase intercambiável. Obviamente, há muitos que trazem inscritos seu momento e seu alvo: a Unidad Popular, em poemas como esses: "Revolución/ revolución/ cuantas contrarrevoluciones/ se cometen en tu nombre", ou "La realidad no cabe en un zapato chino/ menos aún en un bototo ruso"; enquanto que se trata da atualidade em versos como esses: "Bese la bota que lo pisotea/ no sea puritano hombre x Dios" ou mesmo: "Ayer/ de tumbo en tumbo/ hoy/ de tumba en tumba". Por outro lado, são quase atemporais as referências de poemas como "Los límites de Chile" que, em 1968, diz: "Chile limita al Norte con el Cuerpo de Bomberos,/ al Sur con el Ministerio de Educación,/ al Este con la Cordillera de Nahuelbuta/ y al Oeste con el vacío de las olas del Océano que se nombró más arriba,/al Sur con González Videla./ En el medio hay una gran plasta rodeada de militares, curas y normalistas/ que succionan a través de cañerías de cobre". Inclusive, há na antologia poemas duplos ou "correspondentes", cujo núcleo é o mesmo, mas que se matizam de outro modo, segundo o regime contra o qual apontam.

Esta versatilidade ideológica provocou contra o autor a acusação de ser "palhaço da burguesia", feita por certa esquerda. É o previsível para um autor que dispara quase simultaneamente contra os quatro pontos cardeais, que vive rompendo os esquemas e os rótulos, e que se deixaria tipificar apenas com o vago título de anarquista. No aspecto formal, por sua vez, há uma ambiguidade intrínseca às suas próprias ferramentas poéticas, como a propriedade ventríloqua da poesia dramática: "Cuándo van a entender/ éstos son parlamentos/ dramáticos/ Éstos no son/ pronunciamientos/ políticos". Caberia observar algo parecido acerca da sua ironia, ubíqua e giratória por natureza, também semelhante à sua habilidade para falar nas entrelinhas: "Confío 100% en el lector/ estoy convencido de que hasta los.../civiles / son capaces de leer entre líneas".

Mais interessante que o trabalho convencional de classificar o poeta político é a análise de sua forma de operar politicamente no interior da linguagem. A este respeito, eu aplicaria os conceitos que um brilhante ensaísta chileno, Martín Hopenhayn, usa para definir a operação verbal e crítica de Kafka, guardadas as diferenças da analogia. Hopenhayn chama "literatura do trapézio" àquela que exagera certas feições do seu objeto - como uma caricatura - para feri-lo e transcendê-lo: violenta este objeto, empurra-o até seus limites e assim evidencia sua limitação; enfrenta a linguagem como discurso ideológico e justificação da ordem, a linguagem como discurso insurreto: "O escritor é um trapezista que vende a alma ao diabo para derrotá-la". Pois bem, a poesia política de Parra é muito essencialmente uma "literatura do trapézio" e também, se quisermos, da dança na corda bamba. Quando Parra assume, de certa ordem estabelecida, expressões como "por la libre determinación de los pueblos/ por un mundo sin explotadores/ el orden público está asegurado", o que ele faz é precisamente inverter o sentido do discurso ideológico: subverter. De um slogan convencional extrai seu efeito inverso, a caricatura que fere e transcende: "La izquierda y la derecha unidas/ jamás serán vencidas".

A ironia política e o humor negro de Parra injetam, no interior de um discurso convencional já dado, uma carga de profundidade, uma bomba relógio. Recordemos o enunciado das típicas charadas matemáticas para nos darmos conta da operação verbal subversiva que o poeta cumpre ao reescrever sobre a base implícita dessa convenção: "Poema/ Problema:/ Ciento 4 civiles en un cajón/ cuántas orejas y patas son". Um mecanismo análogo opera no terrível humor negro deste Chiste: "De aparecer apareció/ pero en una lista de desaparecidos".

É evidente que nem todos os poemas políticos de Parra se deixam explicar por esse procedimento, mas isso ocorre em muitos deles, e sobretudo nos melhores. Há outros que pagam um excessivo tributo à ideia, à conclusão ou à moral da história, sem verbalizar a operação subversiva. Mas a antologia está repleta destes acertos que justificam o título - Poesía política - como sólida dimensão de toda sua obra poética.



Texto de Ignacio Valente - que, em realidade, é um pseudônimo de José Miguel Ibáñez Langlois, padre, poeta, teólogo e crítico literário nascido em Santiago do Chile. Aos leitores de Noturno do Chile, livro de Roberto Bolaño, não passarão despercidas as semelhanças entre as figuras de Langlois e do narrador do romance, Sebastián Urrutia Lacroix. Este texto foi publicado no El Mercurio, em 18 de dezembro de 1983. Nos posts seguintes, mais política+Parra, IgnacioXBolaño, etc.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A LÓGICA


Aponte em que consiste o vício de construção do
seguinte silogismo:



                     Mortal era Sócrates.
                     Pois bem, eu sou parisiense.
                     Logo, todos os pássaros cantam.












Quando você "supõe resolvido o problema", por
que continua, então, a demonstração? Não seria 
melhor que fosse dormir?


Poema de Juan Luis Martínez (1942-1993). Do livro La nueva novela (1977)