Este é Vincent
Huidobro, poeta francês nascido em Santiago do Chile.
Entre os artistas
sul-americanos que vivem em Paris, Huidobro encarna uma figura destacada e
interessante.
Barbeado, de cabelo
curto e olhos iluminados, põe em seus gestos e em seu modo de falar toda a
estranha fogosidade e vivacidade do seu pensamento. Conversa com nervosismo e
em voz alta e clara.
Estamos em sua sala
de trabalho, pequena sala desordenada em que se confundem os livros, as
revistas, os discos de vitrola, as caixas de charuto e as esculturas e máscaras
negras, com os poemas desenhados de sua celebrada exposição do ano passado.
A vida de Huidobro
é tão agitada e dinâmica como suas teorias. Acaba de chegar da Alemanha, onde
deu conferências e discutiu com matemáticos, cineastas e filósofos. Esteve na
Rússia e já pensa em ir à Suécia e à Noruega...
Suas atividades são
múltiplas. Interessado no problema social da Índia, escreve e publica um livro
de propaganda e de combate revolucionário: "Finis Britania".
Isto gera a
antipatia dos ingleses, um abraço postal de Mahatma Ghandi... e uma rápida
desventura: entre a noite e a manhã, desaparece. Sua família e seus amigos
pensam numa desgraça. Três dias depois está de novo em sua casa. Foi
sequestrado. Regressa de sua prisão como de uma viagem ao campo: sorridente, um
pouco despenteado...
Todos os jornais de
Paris reproduzem seu retrato. Entrevistam-no. Comove por algumas horas a
atenção pública.
- Sei que muitos
riram do atentado de que fui vítima, diz. Os jornalistas trataram o assunto
como piada. E, acredite, foi apenas despeito. Quando voltei para esta casa, uma
centena de repórteres me esperava. De todos os jornais do mundo: ingleses,
americanos, franceses, russos, suecos, italianos... Todos queriam saber. Todos
queriam ser os primeiros a noticiar a solução do caso. E eu expulsei todos eles
de casa sem lhes dizer nada.
Alguns amigos,
entre eles Picasso, Cocteau, Lipchitz, me disseram que não era certo fazer isso
com os jornalistas. Que bobagem! Eu tenho muito que fazer e além disso não sou
um fantoche. Você quer saber quem foram os autores do sequestro? Seus nomes já
estão em poder da polícia. Foram dois scouts
irlandeses... Mas isso é coisa passada. Bem passada. Agora estou ocupado com
meu filme. Você sabia que eu estava preparando um filme? Não sabem disso no
Chile? Será algo novo, muito novo em Paris. Mosjowskine é um ator de talento e
dirigido por mim fará uma coisa boa. Eu tenho condições de ser o melhor diretor
cinematográfico. O melhor ator também. Gostaria de interpretar um Napoleão.
Você notou minha grande semelhança com Napoleão? (Aqui o poeta se levanta e põe
uma mecha de cabelo sobre a testa, cruza um braço sobre o peito, leva o outro
às costas e seus olhos fitam um horizonte distante e imaginário). A pose dura
um segundo. Em seguida continua:
- Meu filme se
chamará "Cagliostro". Além disso, vou regularizar a aparição de minha
revista "Creation". E este ano devo publicar pelo menos quatro livros.
Há um de estética e outro de crítica. De crítica acerba. É necessário fustigar
os imbecis com um chicote para mantê-los distantes, como se faz com os cães.
Para os imbecis minha palavra é um chicote. Este livro chamará a atenção da
América profundamente. Vai se chamar "Tierra Natal", e, claro,
versará sobre assuntos da vida chilena. Os outros dois são de poesia.
Retornar ao Chile?
Quem sabe! Paris, só Paris, é a cidade em que se pode viver dignamente. Eu
conheço todos os países da terra, fui a todos os lugares, e, cada vez que me
distancio de Paris, me distancio com dor. E cada vez que retorno meu coração
treme, estremece de alegria.
Ir ao Chile... Sim.
Desejo ir, fazer uma viagem. Mas esta viagem não está próxima.
Lá me acusam de
antipatriota, porque apareço nas Antologias francesas como poeta francês. Eu
tenho culpa? Além disso, ninguém percebe, ninguém se lembra de que diante de
qualquer belo monumento, diante de qualquer grande obra da humanidade, eu nunca
deixo de pensar: Não fizemos nada no Chile! Não temos nada: nem arquitetura,
nem música, nem poesia. E este é o verdadeiro patriotismo: condoer-se dos
defeitos, chorar sobre os vazios e desejar e lutar para extinguir estes
defeitos e preencher estes vazios.
Huidobro fala com
uma loquacidade admirável. Salta de um tema para outro com agilidade e
destreza. Às vezes se enrola, às vezes tropeça, mas um ligeiro movimento de
pés, uma sábia flexão... e já o temos de novo disposto a outro salto.
- Eu descobri, eu
criei uma Arte nova.
Mostrando-me uma
escultura de Lipchitz, diz:
- Veja que
maravilha...
É uma escultura
cubista. Um racimo de arestas e de planos que se cortam e se enlaçam. Eu
observo, compreendo como é feito, compreendo que é uma coisa que está fora do
cotidiano, uma coisa "criada", enfim, mas confesso que esta criação
não me produz nada além de uma impressão de aridez e frieza.
Huidobro se exalta.
- Como você não
sente isso? É encantador! Que nome leva? Não sei. Não precisa de nome. É uma
escultura, como uma fruta é uma fruta. Tem sabor e qualidade e vida própria.
Observe bem.
Há uma linha
inapagável, um abismo intransponível entre a Arte e a Realidade. O artista não
deve nos dar o habitual. Deve criar. Até agora se fez arte "em torno
de". Há que se rechaçar o poético, o pictórico ou o musical, e criar a
poesia, a pintura e a música. O poema, como toda obra de arte, é um invento.
Seus elementos estão dispersos no espaço. Encontrando-os e unindo-os no tempo,
cria-se o poema. E o poema, assim, terá vida própria como a árvore e o pássaro.
É preciso expulsar
o anedotário, evitar o relato. Só o absurdo, o não habitual, está dentro da
arte. Os fatos, as ações, estão dentro da vida real.
A poesia pura,
segundo Huidobro, começa com o criacionismo. Até agora só se fez relato
poético. O culto da lembrança deu às coisas uma beleza falsa. Platão já dizia
isso muito claramente: "As coisas são belas apenas por causa da
lembrança". O poeta, o artista, deve tomar as coisas, e transformá-las,
criar a beleza, inventar a beleza.
Assim o homem
primitivo tomou a pedra, tomou a madeira, transformou-as e inventou,
"criou" a roda, a flecha, o copo. Como avaliar a qualidade de uma
obra criada? Como saber se ela é boa ou má se não existe nenhum ponto de
controle?
Pergunta absurda. Uma
obra de arte será boa quando conte com os elementos indispensáveis da obra de
arte; quando dentro dela não haja elementos estranhos.
Uma laranja é boa
quando não tem sabor de pera ou de maçã... ou de uma laranja ruim. Como se faz,
como se cria um poema? Isto é impertinente e ridículo. Uma mariposa chama nossa
atenção e nos enche de admiração. Não ocorre a ninguém perguntar como se faz
uma mariposa.
E o poema ou
qualquer obra de arte criada tem tanta vida e pode ter tanta beleza como um
nenúfar ou um rouxinol.
E agora vamos a
Montparnasse, iremos ao "Jockey". Estão lá uns negros da África que
tocam muito bem e certas mulheres douradas cuja dança comove...
Paris, 1924
Texto
de Alberto Rojas Jiménez (1900-1934), poeta e jornalista nascido em Valparaíso,
e um dos responsáveis pelo “Primer Manifiesto Agú”, uma das primeiras
manifestações da vanguarda chilena, em 1921. O texto foi retirado de Chilenos en París, livro de relatos e
crônicas.
A fotografia de Huidobro que abre o post foi tirada por Hans Arp.