quarta-feira, 11 de setembro de 2013

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O rio inverte o curso de sua corrente.
A água das cascatas sobe.
As pessoas passam a caminhar retrocedendo.
Os cavalos caminham para trás.
Os militares desfazem o desfile.
As balas saem das carnes.
As balas entram nos canhões.
Os oficiais guardam suas pistolas.
A corrente é devolvida aos cabos.
A corrente penetra pelas tomadas.
Os torturados deixam de se debater.
Os torturados fecham suas bocas.
Os campos de concentração se esvaziam.
Aparecem os desaparecidos.
Os mortos saem de suas tumbas.
Os aviões voam para trás.
Os "rockets" sobem de volta aos aviões.
Allende dispara.
As chamas se apagam.
Tira o capacete.
La Moneda se reconstitui íntegro.
Seu crânio se recompõe.
Vai a uma sacada.
Allende retrocede até Tomás Moro.
Os detidos saem de costas dos estádios.
11 de Setembro.
Regressam aviões com refugiados.
O Chile é um país democrático.
As forças armadas respeitam a constituição.
Os militares voltam aos seus quartéis.
Neruda renasce.
Volta de ambulância para Isla Negra.
Sente dor na próstata. Escreve.
Victor Jara toca o violão. Canta.
Os discursos entram nas bocas.
O tirano abraça Prat.
Desaparece. Prat revive.
Os afastados são recontratados.
Os trabalhadores desfilam cantando.
Venceremos!


Poema de Gonzalo Millán (1946-2006), do livro La ciudad (1979). Abaixo, vídeo com o poeta lendo seus versos.