quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Vincent Huidobro




Este é Vincent Huidobro, poeta francês nascido em Santiago do Chile.

Entre os artistas sul-americanos que vivem em Paris, Huidobro encarna uma figura destacada e interessante.

Barbeado, de cabelo curto e olhos iluminados, põe em seus gestos e em seu modo de falar toda a estranha fogosidade e vivacidade do seu pensamento. Conversa com nervosismo e em voz alta e clara.

Estamos em sua sala de trabalho, pequena sala desordenada em que se confundem os livros, as revistas, os discos de vitrola, as caixas de charuto e as esculturas e máscaras negras, com os poemas desenhados de sua celebrada exposição do ano passado.

A vida de Huidobro é tão agitada e dinâmica como suas teorias. Acaba de chegar da Alemanha, onde deu conferências e discutiu com matemáticos, cineastas e filósofos. Esteve na Rússia e já pensa em ir à Suécia e à Noruega...

Suas atividades são múltiplas. Interessado no problema social da Índia, escreve e publica um livro de propaganda e de combate revolucionário: "Finis Britania".

Isto gera a antipatia dos ingleses, um abraço postal de Mahatma Ghandi... e uma rápida desventura: entre a noite e a manhã, desaparece. Sua família e seus amigos pensam numa desgraça. Três dias depois está de novo em sua casa. Foi sequestrado. Regressa de sua prisão como de uma viagem ao campo: sorridente, um pouco despenteado...

Todos os jornais de Paris reproduzem seu retrato. Entrevistam-no. Comove por algumas horas a atenção pública.

- Sei que muitos riram do atentado de que fui vítima, diz. Os jornalistas trataram o assunto como piada. E, acredite, foi apenas despeito. Quando voltei para esta casa, uma centena de repórteres me esperava. De todos os jornais do mundo: ingleses, americanos, franceses, russos, suecos, italianos... Todos queriam saber. Todos queriam ser os primeiros a noticiar a solução do caso. E eu expulsei todos eles de casa sem lhes dizer nada.

Alguns amigos, entre eles Picasso, Cocteau, Lipchitz, me disseram que não era certo fazer isso com os jornalistas. Que bobagem! Eu tenho muito que fazer e além disso não sou um fantoche. Você quer saber quem foram os autores do sequestro? Seus nomes já estão em poder da polícia. Foram dois scouts irlandeses... Mas isso é coisa passada. Bem passada. Agora estou ocupado com meu filme. Você sabia que eu estava preparando um filme? Não sabem disso no Chile? Será algo novo, muito novo em Paris. Mosjowskine é um ator de talento e dirigido por mim fará uma coisa boa. Eu tenho condições de ser o melhor diretor cinematográfico. O melhor ator também. Gostaria de interpretar um Napoleão. Você notou minha grande semelhança com Napoleão? (Aqui o poeta se levanta e põe uma mecha de cabelo sobre a testa, cruza um braço sobre o peito, leva o outro às costas e seus olhos fitam um horizonte distante e imaginário). A pose dura um segundo. Em seguida continua:

- Meu filme se chamará "Cagliostro". Além disso, vou regularizar a aparição de minha revista "Creation". E este ano devo publicar pelo menos quatro livros. Há um de estética e outro de crítica. De crítica acerba. É necessário fustigar os imbecis com um chicote para mantê-los distantes, como se faz com os cães. Para os imbecis minha palavra é um chicote. Este livro chamará a atenção da América profundamente. Vai se chamar "Tierra Natal", e, claro, versará sobre assuntos da vida chilena. Os outros dois são de poesia.

Retornar ao Chile? Quem sabe! Paris, só Paris, é a cidade em que se pode viver dignamente. Eu conheço todos os países da terra, fui a todos os lugares, e, cada vez que me distancio de Paris, me distancio com dor. E cada vez que retorno meu coração treme, estremece de alegria.

Ir ao Chile... Sim. Desejo ir, fazer uma viagem. Mas esta viagem não está próxima.

Lá me acusam de antipatriota, porque apareço nas Antologias francesas como poeta francês. Eu tenho culpa? Além disso, ninguém percebe, ninguém se lembra de que diante de qualquer belo monumento, diante de qualquer grande obra da humanidade, eu nunca deixo de pensar: Não fizemos nada no Chile! Não temos nada: nem arquitetura, nem música, nem poesia. E este é o verdadeiro patriotismo: condoer-se dos defeitos, chorar sobre os vazios e desejar e lutar para extinguir estes defeitos e preencher estes vazios.

Huidobro fala com uma loquacidade admirável. Salta de um tema para outro com agilidade e destreza. Às vezes se enrola, às vezes tropeça, mas um ligeiro movimento de pés, uma sábia flexão... e já o temos de novo disposto a outro salto.

- Eu descobri, eu criei uma Arte nova.

Mostrando-me uma escultura de Lipchitz, diz:

- Veja que maravilha...

É uma escultura cubista. Um racimo de arestas e de planos que se cortam e se enlaçam. Eu observo, compreendo como é feito, compreendo que é uma coisa que está fora do cotidiano, uma coisa "criada", enfim, mas confesso que esta criação não me produz nada além de uma impressão de aridez e frieza.

Huidobro se exalta.

- Como você não sente isso? É encantador! Que nome leva? Não sei. Não precisa de nome. É uma escultura, como uma fruta é uma fruta. Tem sabor e qualidade e vida própria. Observe bem.

Há uma linha inapagável, um abismo intransponível entre a Arte e a Realidade. O artista não deve nos dar o habitual. Deve criar. Até agora se fez arte "em torno de". Há que se rechaçar o poético, o pictórico ou o musical, e criar a poesia, a pintura e a música. O poema, como toda obra de arte, é um invento. Seus elementos estão dispersos no espaço. Encontrando-os e unindo-os no tempo, cria-se o poema. E o poema, assim, terá vida própria como a árvore e o pássaro.

É preciso expulsar o anedotário, evitar o relato. Só o absurdo, o não habitual, está dentro da arte. Os fatos, as ações, estão dentro da vida real.

A poesia pura, segundo Huidobro, começa com o criacionismo. Até agora só se fez relato poético. O culto da lembrança deu às coisas uma beleza falsa. Platão já dizia isso muito claramente: "As coisas são belas apenas por causa da lembrança". O poeta, o artista, deve tomar as coisas, e transformá-las, criar a beleza, inventar a beleza.

Assim o homem primitivo tomou a pedra, tomou a madeira, transformou-as e inventou, "criou" a roda, a flecha, o copo. Como avaliar a qualidade de uma obra criada? Como saber se ela é boa ou má se não existe nenhum ponto de controle?

Pergunta absurda. Uma obra de arte será boa quando conte com os elementos indispensáveis da obra de arte; quando dentro dela não haja elementos estranhos.

Uma laranja é boa quando não tem sabor de pera ou de maçã... ou de uma laranja ruim. Como se faz, como se cria um poema? Isto é impertinente e ridículo. Uma mariposa chama nossa atenção e nos enche de admiração. Não ocorre a ninguém perguntar como se faz uma mariposa.

E o poema ou qualquer obra de arte criada tem tanta vida e pode ter tanta beleza como um nenúfar ou um rouxinol.

E agora vamos a Montparnasse, iremos ao "Jockey". Estão lá uns negros da África que tocam muito bem e certas mulheres douradas cuja dança comove...

Paris, 1924


Texto de Alberto Rojas Jiménez (1900-1934), poeta e jornalista nascido em Valparaíso, e um dos responsáveis pelo “Primer Manifiesto Agú”, uma das primeiras manifestações da vanguarda chilena, em 1921. O texto foi retirado de Chilenos en París, livro de relatos e crônicas.




A fotografia de Huidobro que abre o post foi tirada por Hans Arp.